Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Observatório da China - Exposição “Cantão e a Rota Marítima da Seda”

UCCLA apoia exposição “Cantão e a Rota Marítima da Seda”



Terá lugar amanhã, dia 21 de setembro, pelas 19 horas, a inauguração da exposição “Cantão e a Rota Marítima da Seda”, no Museu de Évora - Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo (sito no Largo Conde de Vila Flor), que conta com o apoio da UCCLA. O Secretário-Geral, Vítor Ramalho, estará presente na inauguração.

A mostra é organizada pelo Observatório da China e Museu de Guangzhou, em parceria com a Câmara Municipal de Évora, Museu Frei Manuel do Cenáculo/Direção Regional de Cultura do Alentejo, e conta com o apoio da UCCLA, Embaixada da República Popular da China e Turismo do Alentejo.

Esta exposição pretende aprofundar o conhecimento e os laços culturais com a China, através da divulgação à população do Alentejo, da milenar cultura da província chinesa de Cantão, uma das mais importantes a nível cultural e económico e que teve um papel pioneiro nas relações marítimas da China com o Ocidente e o Oriente.

A exposição apresenta uma coleção de importância histórica, com peças originais, algumas delas recolhidas em escavações arqueológicas em túmulos das antigas Dinastias. Incluí, também, artefactos datados de há mais de 2000 anos e peças que ilustram as relações marítimas e comerciais de Cantão com a Europa e com Portugal.

A exposição estará patente ao público até ao dia 31 de dezembro de 2017. Horário de Verão: das 10h00 às 18h00. Horário de Inverno: das 9h30 às 17h30.

A exposição tem um custo de entrada de três euros, que permite visitar, igualmente, a exposição permanente do Museu:

Câmara Agrícola Lusófona na feira SuperMinas Food Show 2017 em Belo Horizonte


A CAL convida empresas portuguesas do agroalimentar para uma das maiores feiras de distribuição alimentar do Brasil



A Câmara Agrícola Lusófona (CAL) está a dinamizar a participação de pequenas e médias empresas (PME) nacionais a estarem presentes no expositor de Portugal, naquele que é considerado como o evento mais completo do setor do retalho no Brasil, a feira SuperMinas Food Show 2017.

De 15 a 22 de outubro, em Belo Horizonte, na capital do Estado de Minas Gerais, a comitiva empresarial participante terá a oportunidade de expor os seus produtos numa feira que em 2016 teve mais de 54 mil profissionais do setor e que gerou um volume de negócios superior a 470 milhões de euros. Relativamente ao agronegócio, o Brasil importa 9.920 milhões de euros e de Portugal apena importa 287 milhões de euros, correspondendo a 3% do total. Os produtos que Portugal possui maior quota de mercado no Brasil são: carnes transformadas, vinho, pêras, bolachas e azeite.

Através desta ação pretende-se fortalecer as boas relações comerciais entre Portugal e Brasil, com especial relevância com o Estado de Minas Gerais, o qual se tem consolidado na economia brasileira como o terceiro maior PIB do país. Minas Gerais beneficia da sua posição geoestratégica, encontrando-se delimitado por seis estados: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Goiás, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, constituindo-se assim como uma porta de entrada para os mercados adjacentes.

O potencial de exportação português é elevado, considerando o valor total de importações agoralimentares do estado de 441 milhões tendo Portugal apenas uma quota de mercado de 1%, o que corresponde a 4,1 milhões de euros. Os principais produtos que Portugal exporta para o estado mineiro os produtos oleaginosos, bebidas, pescado e frutas, cujas quotas no estado são 9,4%, 7,9%, 5,5% e 2%, respetivamente.

Ao longo da missão, os participantes terão acesso a um programa que possui uma abordagem transversal no agronegócio, proporcionando contactos com diversas entidades de relevo, privilegiando-se a criação contactos comerciais.

Esta é uma iniciativa que se insere no âmbito Projeto de Internacionalização Agronegócio CPLP 2017/2018, cofinanciado pela União Europeia através do Portugal 2020 e Compete 2020.

As inscrições são limitadas, podendo ser efetuadas pela seguinte ligação: aqui

O programa poderá ser acedido: aqui

Para mais informações: aqui

Sobre a CAL:

A CAL – Câmara Agrícola Lusófona é uma associação empresarial sem fins lucrativos que está presente em todos os países da CPLP, promovendo a divulgação do agronegócio, em território nacional e internacional, com particular ênfase nos países de língua portuguesa.


OIT - Mundo tem 40 milhões de pessoas na escravidão moderna e 152 milhões de crianças no trabalho infantil

Novas estimativas globais serão lançadas pela OIT e parceiros durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque.



Uma nova pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Fundação Walk Free, em parceria com a Organização Internacional para Migração (OIM), revela a verdadeira escala da escravidão moderna em todo o mundo. Os dados, lançados hoje durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, mostram que mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo foram vítimas da escravidão moderna em 2016. Além disso, a OIT também lançou uma nova estimativa de que cerca de 152 milhões de crianças entre cinco e 17 anos foram submetidas ao trabalho infantil no mesmo ano.

As novas estimativas também mostram que as mulheres e as meninas são as mais afetadas pela escravidão moderna, chegando a quase 29 milhões ou 71% do total. As mulheres representam 99% das vítimas do trabalho forçado na indústria comercial do sexo e 84% dos casamentos forçados.

A pesquisa revela que, entre as 40 milhões de vítimas da escravidão moderna, cerca de 25 milhões foram submetidas a trabalho forçado e 15 milhões foram forçadas a se casar.

O trabalho infantil continua concentrado principalmente na agricultura (70,9%). Quase um em cada cinco trabalhadores infantis trabalha no setor de serviços (17,1%), enquanto que 11,9% dos trabalhadores infantis trabalham na indústria.

O Diretor-Geral da OIT, Guy Ryder, disse: "A mensagem que a OIT está enviando hoje – junto com nossos parceiros da Aliança 8.7 - é muito clara: o mundo não estará em posição de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a menos que aumentemos de maneira dramática os nossos esforços para combater esses problemas. Essas novas estimativas globais podem ajudar a moldar e desenvolver intervenções para prevenir o trabalho forçado e o trabalho infantil".

O presidente e fundador da Fundação Walk Free, Andrew Forrest, afirmou: "O fato de que, como sociedade, ainda temos 40 milhões de pessoas na escravidão moderna é uma vergonha para todos nós em qualquer dia. Se considerarmos os resultados dos últimos cinco anos, para os quais coletamos dados, 89 milhões de pessoas tiveram alguma experiência de escravidão moderna, por períodos de tempo que variam de alguns dias a cinco anos. Isso fala diretamente com a discriminação e a desigualdade enraizadas profundamente em nosso mundo atual, associadas a uma tolerância chocante da exploração. Isso precisa parar. Todos nós temos um papel a desempenhar na mudança dessa realidade – empresas, governos, sociedade civil, cada um de nós".

Sobre os dados

As novas estimativas globais são um esforço coletivo dos membros da Aliança 8.7, a parceria mundial para acabar com o trabalho forçado, a escravidão moderna, o tráfico de pessoas e o trabalho infantil, que reúne parceiros chave representando governos, organizações das Nações Unidas, setor privado, organizações de empregadores e trabalhadores e sociedade civil, a fim de atingir a Meta 8.7 da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável.

Os dados estão publicados em dois relatórios:
Estimativas Globais da Escravidão Moderna: trabalho forçado e casamento forçado, elaborado em conjunto pela OIT e pela Fundação Walk Free, em parceria com a OIM;

Os dados estão disponíveis no sítio da Aliança 8.7

Notas:

Escravidão moderna

Existem cerca de 40 milhões de pessoas presas na escravidão moderna. Mulheres e meninas são afetadas desproporcionalmente, chegando a quase 29 milhões ou 71% do total. Uma em cada quatro vítimas da escravidão moderna são crianças (cerca de 10 milhões). Por volta de 37% (ou 5,7 milhões) das pessoas forçadas a casar eram crianças.

Trabalho forçado

Cerca de 25 milhões de pessoas estavam em situação de trabalho forçado em qualquer momento em 2016. Fora isso, 16 milhões de pessoas estavam em situação de exploração de trabalho forçado no setor privado, como trabalho doméstico, construção e agricultura. Além disso, cerca de cinco milhões de pessoas estavam em situação de exploração sexual forçada, e pouco mais de quatro milhões de pessoas (ou 16% do total) estavam em situação de trabalho forçado imposto por autoridades de governos.

Casamento forçado

Estima-se que 15,4 milhões de pessoas viviam em casamentos forçados em qualquer momento de 2016. Desse total, 6,5 milhões de casos ocorreram nos últimos cinco anos (de 2012 a 2016). O restante começou antes desse período, mas continuou durante ele. Mais de um terço de todas as vítimas do casamento forçado eram crianças no momento em que se casaram, e quase todas essas crianças vítimas eram meninas.

Trabalho infantil

Um total de 152 milhões de crianças – 64 milhões de meninas e 88 milhões de meninos – estão sujeitas ao trabalho infantil, representando quase uma em cada dez crianças no mundo. O maior número de crianças de cinco a 17 anos envolvidas em trabalho infantil foi encontrado na África (72,1 milhões), seguida da Ásia e do Pacífico (62 milhões), das Américas (10,7 milhões), da Europa e da Ásia Central (5,5 milhões) e dos Estados Árabes (1,2 milhões). Aproximadamente um terço das crianças de cinco a 14 anos envolvidas em trabalho infantil estão fora do sistema educacional. Além disso, entre as crianças que realizam trabalhos perigosos, 38% das que têm de cinco a 14 anos e quase dois terços das que têm de 15 a 17 anos trabalham mais de 43 horas por semana.

Organização Internacional do Trabalho

terça-feira, 19 de setembro de 2017

‘Lucia’, a biografia da grande biógrafa

                                                            I
A uma época em que das mulheres da burguesia só se esperava que fossem boas donas de casa e cuidassem bem dos filhos, Lucia Miguel Pereira (1901-1959) foi uma personagem incomum. Ensaísta, romancista, crítica literária e tradutora, ela cumpriu uma trajetória singular, ao se tornar biógrafa dos dois maiores expoentes da Literatura Brasileira no século XIX: Machado de Assis (1839-1908) e Gonçalves Dias (1823-1864). Para recuperar essa história de vida, o poeta, ensaísta e cronista Fabio de Sousa Coutinho escreveu Lucia: uma biografia de Lucia Miguel Pereira (Brasília, Outubro Edições, 2017).

Filha de um médico de muito prestígio – hoje nome de uma cidade do Estado do Rio de Janeiro – e formada no Colégio Sion, da antiga capital da República, tradicional escola católica de ensino básico privado para moças, Lucia foi, acima de tudo, uma mulher de coragem e de personalidade invulgar, que enfrentou “as amarras da sociedade de seu tempo”, como assinalou a escritora Ana Miranda no texto de apresentação que escreveu para este livro.

A um tempo em que mulheres só entravam na Academia Brasileira de Letras (ABL) se fossem acompanhar seus maridos acadêmicos, Lucia, desde cedo, procurou cumprir uma carreira literária, colaborando em jornais e revistas, a partir da Elo, publicação fundada por antigas alunas do Colégio Sion, que durou de 1927 a 1929, com continuidade no famoso Boletim de Ariel, onde exerceu crítica literária até 1937, e na Revista do Brasil, de 1938 a 1943 e, mais tarde, nas páginas dos tradicionais diários Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, e O Estado de S. Paulo, em cujas páginas do seu famoso Suplemento Literário pontificou com textos profundos que mais se assemelhavam a estudos literários.

A erupção de Lucia no panorama literário brasileiro, porém, deu-se com aquela que é considerada a sua obra-prima, Machado de Assis (estudo crítico e biográfico), cuja primeira edição é de 1936 pela Companhia Editora Nacional. Com um estilo elegante e preciso, Coutinho faz uma análise irretocável desse trabalho da então jovem Lucia Miguel Pereira:

            “Lucia fixou, para a eternidade, a vida de um mestiço de origem humilde – filho de um mulato carioca, pintor de paredes e dourador, e de uma lavadeira lusitana da ilha açoriana de São Miguel – que, tendo frequentado apenas a escola primária e sido obrigado a trabalhar desde a infância, alcançou alta posição na burocracia e obteve a consideração social numa época em que o Brasil era ainda uma monarquia escravocrata. É certo frisar que, graças às tendências literárias do imperador Pedro II, o valor intelectual era então mais acatado, em comparação com o econômico e, até mesmo, com os valores hereditários”.

Igualmente importante foi a biografia que fez de Gonçalves Dias, o maior dos poetas brasileiros na segunda metade do século XIX, “perfeitamente caracterizado como romântico e indianista, ao lado de José de Alencar (1829-1877), o fundador do romance brasileiro”, na definição de Coutinho. O livro foi publicado em 1943 pela Livraria José Olympio Editora, 37º volume da Coleção Documentos Brasileiros, com excepcional acolhida pela crítica. Só agora, em 2016, saiu a sua segunda edição pela Edições do Senado Federal.


                                                           II
Se tivesse ficado resumida a essas duas biografias, a carreira literária de Lucia já seria importante, mas de sua obra constam ainda livros clássicos como Ensaio de interpretação da literatura norte-americana (Rio de Janeiro, Sociedade Felipe d´Oliveira, 1943), Prosa e ficção de 1870 a 1920 (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1950), e Cinquenta anos de literatura (Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1952), além da tradução que fez de O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust (1871-1922), e de sua co-autoria (organização) com Câmara Reys em Livro do centenário de Eça de Queiroz, publicado em 1945 pela Edições Dois Mundos: Portugal-Brasil.

Sem contar os livros em edição-póstuma com artigos selecionados por Luciana Viégas, como A leitora e seus personagens (1992), que abrange textos saídos entre 1931 e 1943, Escritos da maturidade (2005), seleta de textos publicados em periódicos de 1944 a 1959, e O século de Camus (2015), que reúne quase duas centenas de estudos que apareceram de 1947 a 1955 no Correio da Manhã e mais de uma dezena no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo em 1957, todos publicados pela Graphia Editorial, do Rio de Janeiro, além de Ficção reunida (Curitiba, Editora UFPR, 2006). É de se notar que Luciana Viégas é autora da tese de doutoramento Escrever para compreender, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2012, em que faz uma leitura atenta dos escritos da maturidade de Lucia Miguel Pereira.

Em sua incomum capacidade de trabalho, Lucia ainda teve tempo de dedicar-se à literatura infantil, escrevendo quatro romances: A fada menina, que marca sua estréia em 1939, obra reeditada em 1944, e A floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, todos publicados em 1943 e sem reedição até hoje.   


                                                           III
Sobrinho afim de Lucia Miguel Pereira, Coutinho, que tinha apenas oito anos de idade quando a historiadora literária morreu, desde cedo alimentou a ideia de escrever a sua biografia. Na verdade, sempre foi considerado “a pessoa ideal para levar a efeito essa grande navegação biográfica”, como disse o poeta Anderson Braga Horta no prefácio que escreveu para esta obra.

É que o autor é sobrinho do grande historiador Octavio Tarquínio de Sousa (1889-1959), com quem Lucia se casou oficialmente em 1939, no Uruguai, já que o noivo à época era desquitado. E recebeu o apoio de vários parentes e amigos do casal, especialmente de Antonio Gabriel, neto de Octavio, mas que foi criado como filho pelo casal, além de personalidades como o embaixador Afonso Arinos, filho, primo de Lucia, que ocupa uma cadeira na ABL.

O parentesco vem do fato de que o médico Miguel da Silva Pereira (1871-1918), pai de Lucia, era irmão do desembargador Cesário Pereira, pai de Anah, mulher do pai de Afonso Arinos, filho, o político udenista Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990). Também o poeta e acadêmico Lêdo Ivo (1924-2012), o professor Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017), cuja mãe era irmã da mãe de Lucia, e o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), amigo do casal, entre outros, contribuíram para que fosse traçado o bem-acabado perfil de Lucia.

Conhecendo profundamente os laços familiares da biografada, Coutinho valeu-se ainda de pesquisas de arquivo para estabelecer a trajetória de vida e literária de Lucia, marcada especialmente por seu trágico desaparecimento a 21 de dezembro de 1959, ao lado do marido, num acidente de avião próximo ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em viagem de retorno de São Paulo, onde o casal havia cumprido um roteiro cultural ao lado de Antonio Candido e sua esposa, a filósofa, crítica literária, ensaísta e professora Gilda de Mello e Souza (1919-2005).

Aliás, o biógrafo recorda ainda que, no dia 3 de dezembro de 1928, Lucia deixara, por insistência da mãe, de viajar no avião que faria um vôo em homenagem ao retorno ao Brasil do aeronauta Alberto Santos Dumont (1873-1932), considerado o pai da aviação brasileira. Esse avião, que iria saudar o navio que trazia o herói brasileiro, entraria em pane ao fazer uma curva brusca para evitar colisão com outra aeronave,  espatifando-se nas águas da Baía da Guanabara. Morreriam seus cinco tripulantes e nove passageiros.


                                                           IV
Fabio de Sousa Coutinho (1951), nascido no Rio de Janeiro, é diplomado em Direito, com mestrado em Direito Internacional e Comparado pela Southern Methodist University (SMU), de Dallas, Texas-EUA. Advogado, já atuou como vogal da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, subsecretário de Justiça e do Interior do Estado do Rio de Janeiro e advogado do Banco Mundial.

Foi membro da Comissão de Ética Pública da Presidência da República (2009/2012). É membro titular do Pen Clube do Brasil, da Academia de Letras do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia Brasiliense de Letras, além de sócio-fundador da Confraria dos Bibliófilos do Brasil. Em 15 de abril de 2015, foi eleito presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, para o biênio 2015/2017, tendo sido reeleito para 2017/2019. É colaborador de vários jornais e revistas do País.

É autor de 30 anos de poesia (Poebras, 2008); Differences between civil law and common law procedure as illustrated by Brazil and the United States (1977); O princípio da legalidade (em parceria, 1981); Princípios constitucionais tributários (em parceria, 1993); Leituras de Direito Político (Brasília, Thesaurus Editora, 2004); Juristas na Academia Brasileira de Letras (2006); Três irmãos do Recife (2009); Alfredo Pujol (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Série Essencial, 2011); Elogio de Fernando Mendes Vianna (Brasília, Thesaurus Editora, 2010); Na cadeira de Castro Alves (Brasília, Thesaurus Editora, 2013), Lafayette Rodrigues Pereira (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Série Essencial, 2011); Em louvor a Drummond (em colaboração, 2012); Cadeira 24: dos rios do Pará aos verdes mares do Ceará (em colaboração, 2013); e  Crônicas de um leitor apaixonado (Brasília, Thesaurus Editora, 2015). Participou da coletânea Espelhos da palavra/Espejos de la palabra (Brasília, Abrace Editora, 2001). Adelto Gonçalves - Brasil

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Lucia, uma biografia de Lucia Miguel Pereira, de Fabio de Sousa Coutinho. Brasília: Outubro Edições, 178 págs., R$ 40,00, 2017. E-mails: fabiodesousacoutinho@terra.com.br outubroedicoes@gmail.com


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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012) e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015).

Brasil - OMC: a derrota anunciada

SÃO PAULO – Não deixa de ser curioso que, num momento em que a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra, é dirigida pelo diplomata brasileiro Roberto de Azevêdo, o Brasil corra o risco de ser condenado por adotar programas industriais protecionistas que são nitidamente contrários às normas aceitas pelo comércio internacional. Obviamente, nada disso ocorre por empenho do diplomata que, agora no primeiro ano de seu segundo mandato à frente do organismo, tem a obrigação de defender os princípios que regem a entidade, cuja existência sempre foi a de evitar uma escalada protecionista no mundo.

Diga-se, de passagem, que, se a condenação do Brasil vier a se confirmar – fato de que ninguém duvida –, culpa cabe exclusivamente à maneira equivocada como a política comercial externa foi desenvolvida nos 13 anos e meio de lulopetismo. Primeiro, foi a maneira sibilina como o governo brasileiro se comportou nas negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta em 1994 pelo governo norte-americano, trabalhando nos bastidores com os governos argentino e venezuelano para a inviabilização daquele possível bloco econômico, o que se deu em novembro de 2004.

O que os líderes dos países sul-americanos diziam é que, com a Alca, a indústria norte-americana iria oferecer produtos a preços mais baixos no continente latino-americano, levando ao fechamento de fábricas e ao desemprego. O que se viu, porém, é que, com o fracasso da Alca, os produtos manufaturados brasileiros perderam espaço no mercado norte-americano, o maior do mundo, o que, de fato, tem resultado no fechamento de indústrias e contribuído para o aumento do desemprego no País.

Agora, vê-se que a condenação do Brasil é resultado também daquela política equivocada, pois o processo da OMC é contra sete programas industriais que foram criados quase todos durante o período petista, levando em conta critérios de política industrial anacrônicos, que estabeleceram incentivos fiscais da ordem de R$ 25 bilhões para alguns setores privilegiados, sem que se conheçam até hoje os benefícios que tenham produzido.

Excessivamente protegidos, alguns setores industriais não têm investido em inovação, o que só tem contribuído para a perda de competitividade do manufaturado brasileiro. Com isso, o produto nacional tem-se limitado a encontrar espaço em mercados próximos.

Para piorar, essas políticas de incentivos fiscais têm contribuído para tornar mais nebulosas as relações entre as empresas e o governo, pois a busca de favores fiscais naturalmente passa por relações promíscuas entre empresários (ou seus prepostos) e aqueles que podem ajudar a que sejam concedidos, como têm mostrado as várias etapas da Operação Lava Jato. Milton Lourenço - Brasil


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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Moçambique - Corredor de Nacala reforçado com 2,1 mil milhões

Moçambique e Malawi vão investir mais 2,1 mil milhões de euros no reforço da capacidade do Corredor de Desenvolvimento de Nacala (CDN). O acordo entre os dois governos foi hoje assinado em Maputo.

Falando após a assinatura do acordo, o ministro dos Transportes e Comunicações de Moçambique, Carlos Mesquita, afirmou que o entendimento visa a mobilização de recursos para o reforço da capacidade das infraestruturas ferroviárias e portuárias existentes no CDN.

“Os adicionais 2,5 mil milhões de dólares [2,1 mil milhões de euros] têm a ver com o melhoramento das infraestruturas, criação de capacidade adicional, aquisição de equipamentos circulantes, como locomotivas e vagões, e investimentos na própria linha-férrea”, declarou Carlos Mesquita.

O dinheiro será reunido através das parceiras entre os governos e as concessionárias daquela infraestrutura, principalmente a brasileira Vale e a japonesa Mitsui.

O acordo, prosseguiu Mesquita, “é um instrumento que vai ter um impacto muito forte para o desenvolvimento dos dois países e tem também o objectivo de dar apoio técnico e logístico para o desenvolvimento da agricultura, turismo e comércio”.

O ministro dos Transportes e Serviços Públicos do Malawi, Jappie Mhango, afirmou, por seu turno, que o acordo traduz a determinação dos dois países no aproveitamento do potencial económico existente no CDN, assinalando que a utilização das infraestruturas ferro-portuárias de Moçambique é essencial para o desenvolvimento do seu país.

“Malawi e Moçambique partilham as mesmas aspirações em relação ao CDN, o corredor é um catalisador para o desenvolvimento económico dos dois países”, afirmou Jappie Mhango.

Os projetos hoje anunciados por Moçambique e Malawi, na presença de responsáveis da Vale e da Mitsui, vão complementar os empreendimentos que possibilitaram a viabilização da ferrovia de 912 quilómetros, incluindo 200 que atravessam o território do Malawi, e um terminal portuário de águas profundas que escoa o carvão que a mineira brasileira produz no distrito de Moatize, província de Tete, centro de Moçambique.

Para poder exportar em pleno o carvão que produz em Moatize, província de Tete, centro de Moçambique, a Vale associou-se à japonesa Mitsui e à empresa pública moçambicana CFM, num investimento de 4,5 mil milhões de dólares.

A Vale projeta exportar 18 milhões de toneladas de carvão por ano, atingindo o máximo da capacidade da nova ferrovia, contra 13 milhões de toneladas este ano e seis milhões em 2016, ano em que o CDN entrou em operação. In “Transportes & Negócios” - Portugal

Portugal ou Espanha: qual é a nação mais antiga?

Nos recentes debates sobre o referendo catalão, tem aparecido nas bocas dos defensores da unidade espanhola esta espantosa frase: «Espanha é a nação mais antiga da Europa!» Normalmente, a frase é dita como ataque ao independentismo catalão, que — na óptica espanhola — está a tentar destruir o país mais antigo da Europa.

1. A história simplificada da nossa tribo

Ora, na verdade, dos três países independentes da nossa península (Andorra, Espanha e Portugal), o mais recente é, precisamente, Espanha... Andorra é um principado desde o século XIII, antes da união dinástica entre Castela e Aragão. E Portugal... Bem, todos sabemos que Portugal já existia por essa altura. Espanha, por mais voltas que se dê, não é a nação mais antiga da Europa. Nem sequer consegue ser a nação mais antiga da península... Bolas, nem a Andorra consegue ganhar.

Se assim é, donde vem aquela estranha frase? E como é que o próprio Mariano Rajoy consegue dizer isto sem que os seus ouvintes reclamem pelo erro crasso? Na verdade, poucos espanhóis parecem importar-se com tal dislate. Mas porquê?

Bem, primeiro, quando alguém diz qualquer coisa a favor da nossa tribo em particular (clube, partido, nação), o sentido crítico fica um pouco embotado. É muito humano.

Depois, enfim, a História que temos na cabeça é um pouco mais maleável do que pensamos e depende do nosso sentido de identidade. O passado — ou aquilo que lembramos e esquecemos desse mesmo passado — é um campo de batalha. E a forma espanhola de olhar para o passado encontra por lá uma nação anterior ao Estado.

2. A Catalunha já foi independente?

Quando falo em campo de batalha, não falo da história feita pelos historiadores (embora também aí haja muita batalha), mas das narrativas simplificadas com que contamos o percurso das nossas nações. Nós, por cá, gostamos de contar esta narrativa muito simplificada: tornámo-nos independentes em 1143 e, a partir daí, andámos a defendermo-nos das invasões espanholas e a descobrir o mundo — e lá conseguimos chegar até aos dias de hoje com a nossa independência intacta.

Pois, por estes dias, é interessante olhar para as histórias simplificadas que estão na cabeça de espanhóis e catalães. Já vimos que, para muitos espanhóis, a sua nação é mais antiga do que todas as outras — apesar de não ser. E os catalães, como contam o seu passado?

Contam desta maneira: a Catalunha foi o centro duma antiga coroa, com sede em Barcelona, que chegou a ter um império no Mediterrâneo e foi independente até 1714 — quando o pérfido rei de Castela invadiu aquele que era também um dos seus reinos e impôs as leis de Castela. Reparem que esta data (1714) é mais recente que a data da união de Inglaterra à Escócia. Para o sentimento nacional catalão, a perda da independência foi ontem! O que estão a fazer agora é a recuperar o que foi deles de direito, como antiga nação europeia.


Já os espanhóis mais centralistas contam outra história: a Catalunha é uma mera região duma antiga coroa medieval (a Coroa de Aragão) que, sem dramas e voluntariamente, se juntou a Castela no final do século XV, fazendo renascer a nação espanhola que, lá no fundo, tem origem na antiga Hispânia romana e no reino dos Visigodos. Virá daí — digo eu — essa estranha afirmação, desmentida por tantos factos, de que Espanha é a mais antiga nação da Europa.

Os dramas, na cabeça dos espanhóis, foram criados pelos separatistas — que terão aparecido, por magia, nas últimas décadas.

3. Confronto de Histórias

Portanto, na cabeça dum nacionalista catalão, a Catalunha é uma nação antiga, com uma História, uma língua e um território — e só em 1714 perdeu a independência.

Na cabeça dum nacionalista espanhol, a Catalunha nunca foi independente e é uma região duma nação antiquíssima, reconstituída no século XV e que, no fundo, já vinha da antiga nação visigoda.

Todas estas formas de contar a História são maneiras de olhar para os mesmos acontecimentos. Mas, atenção: não caio na tentação de achar que todas estas leituras são igualmente válidas. Há narrativas históricas mais simplistas do que outras. Dizer que Espanha é a nação mais antiga da Europa parece-me ser uma forma especialmente errada de olhar para a História.

Depois, se virmos bem, todas estas histórias são um pouco anacrónicas. As guerras e as dinastias eram assuntos de gente nobre e os povos tinham pouca noção de pertencerem a esta ou àquela nação ou a este ou àquele Estado — ao contrário do que acontece hoje em dia, em que todos nós sabemos de que país somos. Antes do século XIX, cada pessoa era da sua terra, tinha a sua maneira de falar própria da região, orava a um deus — e nessas roupagens encontrava a sua tribo...

No século XIX, os vários nacionalismos reinventaram a história, cada um à sua maneira. Essas histórias reinventadas foram transmitidas às populações através da escolarização, da literatura e por todos os mecanismos que hoje são naturais. A tribo de cada um começou a ser a tal nação, que ora é defendida pelo Estado, ora por elites sempre à espreita de criar o seu próprio Estado. Este processo pode parecer especialmente simples num país como Portugal — mas é complicadíssimo noutras paragens — basta olhar para as notícias que vêm de Barcelona.

Não há volta a dar: vivemos com essas histórias nacionais na cabeça. São mitos que fazem parte do que somos. O grande problema é quando essas histórias entram em confronto, como acontece aqui mesmo ao lado. A solução? Não a tenho. Mas talvez o pior que possamos fazer seja acreditar piamente nestas histórias e não hesitar um pouco antes de atirar as nossas declarações superlativas à cara dos outros. Por isso, faça o que fizer com a vontade catalã de votar, talvez fosse aconselhável a Mariano Rajoy não andar a espalhar por aí uma Espanha que, de tão antiga, mais parece um fantasma. Marco Neves – Portugal in “24Sapo”


Marco Neves - Autor do romance de aventuras A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra e Paz). Tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa. Escreve no blogue Certas Palavras.