Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um grito (sufocado) contra a ditadura

                                                            I
Se já foi definido pelo poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, como o mais português dos poetas brasileiros, Álvaro Alves de Faria (1942) também pode ser considerado um dos romancistas mais criativos da geração de 1940 na Literatura Brasileira. Prova disso é o romance O Tribunal (Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 2015), escrito e publicado em 1971 à época do regime militar (1964-1985) e que constitui “um testemunho fidedigno da resistência da cidadania contra um regime ditatorial e a demonstração surpreendente da capacidade humana de superação diante das mais angustiantes situações”, na definição do editor e escritor Nicodemos Sena, autor do texto de apresentação deste livro.

Texto que foge à classificação de novela ou romance, O Tribunal, primeira incursão do poeta na ficção, é uma prosa poética em tom de confissão – não fosse seu autor extremamente lírico – que surpreende ainda hoje o leitor, ao mostrar “uma personagem que avança pelos meandros de uma selva escura, através das barbáries e miséria, lutando pela consolação desse sentimento positivo”, como escreveu o crítico Geraldo Galvão Ferraz (1941-2013) no prefácio preparado para a segunda edição desta obra publicada em 1976.

Como o bancário Josef K., de O Processo, de Franz Kafka (1883-1924), a personagem de Faria se vê diante de uma acusação absurda, que foge à luz da razão, ou seja, a de ter atropelado um tanque, o que lhe rende uma condenação à pena máxima. E, como a personagem de Kafka, sente-se como um inseto diante da brutalidade e insensibilidade de “um tribunal criado apenas para condenar”.

Como a obra kafkiana, o livro é igualmente uma crítica direta ao sistema judiciário brasileiro à época do Estado autoritário, cujos malefícios sobreviveram em grande parte depois da restauração do regime democrático e que, em muitos aspectos, ainda estão presentes na sociedade brasileira. Por isso mesmo, o livro da Faria continua atualíssimo. Até porque, como escreveu Ferraz, “O Tribunal parece ter surgido como um lancinante grito de dor ante os males do mundo e como uma amarga denúncia das diversas opressões que atormentam o homem de hoje”.

Em outras palavras: é um exemplo perfeito de sistemas judiciários iníquos, como o da história de Josef K., que não respeitam as leis e operam acima delas, de acordo com a vontade e os interesses de juízes pouco confiáveis.


                                                           II
Numa época como a nossa em que alguns desavisados saem a público para defender impunemente aquela época de arbítrio, nada mais oportuno que a reedição deste livro, um pungente relato que põe diante do leitor um homem que, embora oprimido e estilhaçado por dentro de si mesmo em razão da tortura, olha “profundamente” nos olhos sanguíneos dos torturadores e, “num instante de absurda lucidez, se lança contra as grades e arrebenta os ferros que se enfiam em seu corpo”, como observa Sena no texto das “orelhas” do livro.

Ou ainda como observa o crítico e escritor Adelto Gonçalves, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), na resenha que escreveu para este livro em 2015: “(...) como um Fiódor Dostoievski (1821-1881) brasileiro, Álvaro Alves de Faria fez um relato surreal, absurdo, de confusão entre o real e a ficção, de danação absoluta e submissão ao imaginário, construindo um mundo de sinais trocados, em que o mal está sempre acima do bem, uma descida passo a passo ao inferno”.

Diz mais Gonçalves, citando trecho do livro de Faria: “Como o K. kafkiano, esse personagem sem nome avança tateando por um labirinto, em meio à barbárie e miséria humanas: “Por que o senhor atropelou o nosso tanque? O oficial me perguntou e eu o mandei para a puta que o pariu, ele e todos que inventaram aquela guerra filha de uma grande puta, eu não tenho nada com isto, eu não atropelei ninguém, tem sentido eu atropelar um tanque?”

É de se lembrar ainda que este romance é de uma fase em que o poeta era um ativista da liberdade, período que começou em 1965, um ano depois que os militares haviam usurpado o poder, quando ele passou a fazer recitais nas ruas e praças de São Paulo e lançou o livro O Sermão do Viaduto, um comício poético em homenagem ao Viaduto do Chá, marco da cidade localizado na zona central. Com um microfone e quatro alto-falantes, fez nove recitais no local, desafiando a ordem mantida pelas forças militares.

Em 1966, os recitais foram proibidos e naquele ano, contrariado com a arbitrariedade, Faria escreveu O Tribunal, resultado de sua experiência pessoal, pois já havia sido detido cinco vezes pelos esbirros do Departamento de Ordem Pública e Social, o famigerado Dops, que o acusou de subversivo. Voltaria a ser preso ainda em 1969, acusado de desenhar cartazes para o Partido Socialista Brasileira (PSB), então na clandestinidade.


                                                           III
Nascido em São Paulo, filho de pais portugueses (a mãe é de Famalicão e o pai de Lobito, Angola), Faria publicou mais de 50 livros, incluindo poesia, novelas, romances, ensaios, livros de entrevistas com escritores e peças teatrais, entre elas Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo, que foi proibida 15 dias antes da sua estreia e ficou censurada por seis anos pelo regime militar, depois de receber o Prêmio Anchieta de Teatro, um dos mais importantes na década de 1970.

Há 17 anos dedica-se à poesia em Portugal, onde já publicou 13 livros – 12 de poesia e uma novela –, trabalho que já se estendeu a Espanha, onde publicou seis livros, inclusive uma antologia com mais de 350 páginas, com tradução do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart. Como observa o editor na apresentação, Faria diz que “fugiu” para Portugal por não suportar mais os rumos medíocres da poesia brasileira “amparados por um jornalismo cultural de caráter duvidoso” que, aliás, só costuma dar espaço para autores publicados por grandes editoras, de preferência de origem anglo-saxônica.

Também jornalista, Faria sempre se dedicou à divulgação de trabalhos da área cultural, tendo produzido crítica literária para jornais e revistas, além de comandar programas de rádio e televisão. Por seu trabalho em favor da divulgação cultural, recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro em 1976 e 1983 e o Prêmio Especial da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1981, 1988 e 1989. J. J. Pereira Coelho - Brasil       


_____________________________________

O Tribunal, de Álvaro Alves de Faria, romance, com apresentação de Nicodemos Sena, editor. Taubaté-SP: Editora Letra Selvagem, 88 páginas, R$ 20,00, 2015. 
E-mail:letraselvagem@letraselvagem.com.br 


______________________________________

J. J. Pereira Coelho é crítico literário e divulgador cultural.


Cabo Verde – Vai iniciar-se a prospecção de água em Chã das Caldeiras na ilha do Fogo

São Filipe – Os materiais para equipamento do furo de prospecção de água para abastecer a população de Chã das Caldeiras já se encontram na ilha e com a sua implementação espera-se que a penúria de água fique resolvida até ao final de Março.

O edil de Santa Catarina do Fogo, Alberto Nunes, disse à Inforpress que os equipamentos e materiais já estão na ilha, indicando que a sua implementação vai permitir resolver uma das grandes preocupações com a comunidade de Chã das Caldeiras e que se prende com o abastecimento de água.

O equipamento do furo de Chã das Caldeiras vai ser feito a 100 por cento (%) com recurso à energia renovável (sistema solar) com instalação de um pequeno parque fotovoltaico capaz de gerar energia para fazer a bombagem de água do furo e a sua elevação até um reservatório situado a menos de 500 metros do furo.

O equipamento deste furo enquadra-se no pacote de seis a serem equipados no quadro do projecto que conta com o financiamento do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), no valor de 100 mil contos, sendo que cinco vão ser equipados com energia convencional (três em São Filipe e dois nos Mosteiros) e o de Chã das Caldeiras com energia renovável.

O equipamento do furo de Chã enquadra-se no projecto OSRO “ajuda humanitária de urgência para restauração dos meios de existência e aumento da resiliência das famílias afectadas pela erupção vulcânica”, financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD)

O equipamento do furo de Chã das Caldeiras e o sistema de adução de água à população, a cargo da empresa Constur, está orçado em cerca de nove mil contos (8.925) e deverá ficar concluído no decurso de Março, resolvendo assim o problema de abastecimento de água à população de Chã de forma definitiva.

A materialização das acções do projecto OSRO termina a 31 de Março, conforme contractos de execução celebrados com várias empresas em meados de Novembro de 2017. In “Inforpress” – Cabo Verde

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Angola - Vistos de turismo deixam de ser necessários para cidadãos de cinco países entrarem no país

"Os cidadãos do Botsuana, Maurícias, Seicheles, Zimbabué (todos de África) e Singapura (Ásia), deixam, a partir de Março, de precisar de visto de entrada para estadias turísticas de 30 dias, ou 90 dias por ano, determina um decreto Presidencial."

A informação foi transmitida numa nota do Ministério das Relações Exteriores, que acrescenta ser esta medida enquadrada na reciprocidade, visto que este conjunto de cinco países pratica o mesmo modelo de entradas para cidadãos angolanos.

O mesmo decreto assinado por João Lourenço impõe ainda a simplificação da emissão de vistos de turismo a cidadãos de 35 países, incluindo todos os da União Europeia e ainda outros oito Estados europeus, mais nove do continente africano, oito das Américas, sete da Ásia e três da Oceânia.

Esta realidade, adianta a nota citada pela Angop, será efectivada a partir do dia 30 de Março próximo, estando o MIREX encarregado de informar os respectivos países das alterações previstas.

Nova política migratória

Entretanto, ainda em matéria de política migratória, o Presidente da República, João Lourenço, criou, por despacho, na quinta-feira, , 15, uma comissão multissectorial para a elaboração do projecto do novo regime jurídico de cidadãos estrangeiros, para responder "à necessidade de adopção de uma nova política migratória e de um novo regime de concessão de vistos".

De acordo com uma nota de imprensa da Presidência da República, citada pela Angop, "está em causa a maximização dos benefícios que decorrem da imigração e a diminuição dos seus efeitos corrosivos".

A comissão, que tem noventa dias para apresentar ao Titular do Poder Executivo o relatório final da sua actividade, terá de "elaborar e apresentar o projecto do novo regime jurídico de cidadãos estrangeiros e respectivo regulamento, bem como realizar um estudo comparado sobre a matéria com outras realidades a nível da região e do mundo".

A comissão deverá também "apresentar propostas de simplificação dos procedimentos administrativos para tratamento e processamento da concessão de vistos de entrada".

A apresentação de propostas das taxas e emolumentos a cobrar no âmbito dos processos de concessão de vistos e outros actos migratórios, e, ainda, o estudo da possibilidade de colocação de oficiais de ligação do Serviço de Migração e Estrangeiros junto das embaixadas e postos consulares estão entre as outras tarefas a realizar pela comissão coordenada pelo ministro do Interior.

Esta comissão integra ainda os titulares das pastas das Relações Exteriores, das Finanças, dos Transportes, da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, e do Turismo, bem como os secretários do Presidente da República para os Assuntos Diplomáticos e Cooperação Internacional e para os Assuntos Judiciais e Jurídicos, um representante da Casa de Segurança do Presidente da República, o chefe dos Serviços de Inteligência e Segurança do Estado, e os directores dos Serviços de Inteligência Externa e do Serviço de Migração e Estrangeiros. In “Novo Jornal” - Angola

1986












Vamos aprender português, cantando


Quanto tempo tem que a gente bate essa cabeça     
Sem parar pra perceber que no final
Já foi bem mais que a vontade de um que quer ganhar o mundo e a verdade
Compromisso pra manter o
Fogo que nos dá a cada dia o grão da voz
        
E a liberdade de saber desembolar      
Em qualquer parte do planeta
Sem perder o coração comum que há
Transformando a fé numa oração pra se cantar

Sim eu sei que há essa poeira que te faz
Latino Americano e forte como eu
De sangue e índio vagabundo abençoado pelo rio e pelo sol

Ancestralidade de um cometa que passou naquele ano em que eu nasci
E me contou que éramos muitos por ai
Desencontrados no universo e reunidos no planeta pra vibrar

Paulo, Anjo, Flora, Gusta, Música, João
Pedro, Téo, José, Chicó, Bené, algum Tião

Eu sou seu irmão
Hermano soy yo
Eu sou seu irmão
Hermano soy yo

Quanto tempo tem que a gente bate essa cabeça     
Sem parar pra perceber que no final
Já foi bem mais que a vontade de um que quer ganhar o mundo e a verdade
Compromisso pra manter o
Fogo que nos dá a cada dia o grão da voz
        
E a liberdade de saber desembolar      
Em qualquer parte do planeta
Sem perder o coração comum que há
Transformando a fé numa oração pra se cantar

Sim eu sei que há essa poeira que te faz
Latino Americano e forte como eu
De sangue e índio vagabundo abençoado pelo rio e pelo sol

Ancestralidade de um cometa que passou naquele ano em que eu nasci
E me contou que éramos muitos por ai
Desencontrados no universo e reunidos no planeta pra vibrar

Paulo, Anjo, Flora, Gusta, Música, João
Pedro, Téo, José, Chicó, Bené, algum Tião

Eu sou seu irmão
Hermano soy yo
Eu sou seu irmão
Hermano soy yo

Eu sou seu irmão
Hermano soy yo
Eu sou seu irmão
Hermano soy yo

Eu sou seu irmão
Hermano soy yo
Eu sou seu irmão
Hermano soy yo

Luís Gabriel Lopes -- Brasil

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Um romance das profundezas da floresta

                                                           I
Terceiro romance de Nicodemos Sena (1958), A Mulher, o Homem e o Cão (Taubaté-SP, Editora LetraSelvagem, 2009) não só confirma o talento do seu autor como, ao lado de seus livros anteriores, é, desde a sua publicação, obra de referência para o estudo temático da vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos) na Literatura Brasileira. Por seu estilo ímpar, o autor já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos (1892-1953), Mário de Andrade (1893-1945), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) e o peruano José María Arguedas (1911-1969).

A exemplo do que fez Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, com a figura de Riobaldo, o personagem-narrador de A Mulher, o Homem e o Cão fala diante de um suposto ouvinte sobre as suas vivências no meio da floresta amazônica, discorrendo histórias fantásticas, com ele ocorridas e com sua família, que estão perpassadas por mitos regionais e bíblicos.  Em outros momentos, o narrador-personagem, cujo nome não se conhece, reproduz para o seu suposto ouvinte o que a esposa lhe contara sobre um diálogo que tivera com um homem desconhecido, que seria o “coisa ruim”, uma criatura fantástica e camaleônica que acaba por gerar os conflitos quer perpassam o romance.

Na verdade, como diz o protagonista-narrador logo no início da narrativa, ele, a mulher e seu menino (que, como as crianças-personagens de Graciliano Ramos em Vidas Secas, não tem nome) –  e também o cão que apareceu depois – viveram uma vida feliz em meio aos mistérios da selva, até que algo de estranho aconteceu, ou seja, o aparecimento de uma criatura diabólica, de voz doce e melodiosa, que teria atraído para a água do rio a sua esposa com propostas soezes.

                                                           II
Para a professora Christina Ramalho, doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do prefácio, A Mulher, o Homem e o Cão constitui um caleidoscópio, “cujas imagens brotam da associação constante e mutável de pequenos triângulos simbólicos que encerram em si significados próprios logo transgredidos e transformados por outros, trazidos pelo movimento contínuo do brinquedo”.

Já a professora Dirce Lorimier Fernandes, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), no posfácio que escreveu para este livro, observa que “o fantástico e o inverossímil circulam na obra toda, ora na produção de diálogos simples, ora em conjecturas profundas, ora em diálogos mais filosófico-religiosos”. E lembra que “a erudição da obra não tem fim”.

De fato, o romance está impregnado por textos sagrados. Por exemplo: a mulher, personagem que tem relações amorosas com o “coisa ruim”, sente-se como Eva expulsa do paraíso, nua, depois de ter sido enganada por Satanás disfarçado de serpente, tal como se lê no primeiro livro de Moisés chamado Gênesis da Bíblia Sagrada.

Já o homem, como observa o crítico Oscar D´Ambrosio, autor da apresentação que consta das “orelhas” do livro, é o elemento que interage com a mulher e com o mundo de maneira complementar. “Se há entre eles a paixão, também permeia essa relação uma certa rivalidade e competitividade”, diz, acrescentando que o cão evoca diversas ambiguidades, pois, muitas vezes, relacionado ao diabo, por outro lado, também é visto como o melhor amigo do homem.
           
Em nota aposta ao final do livro, o autor recorda que, para escrever este romance, conheceu as lições da alquimia, sondou livros de caça às bruxas e de bruxarias e perquiriu os símbolos da mitologia. “Nem por isso me atribuo a condição de guru – de embusteiros já anda cheio o mundo”, diz. E acrescenta: “Ao descrever a maneira soez com que o diabo tentou a mulher, não tive o propósito de agravar-lhe o estigma ou escandalizar o leitor cristão. Pretendi fazer uma obra de ficção que envolvesse a imaginação numa experiência de suspensão e descrença, pois me interessa tanto a onipotência de Deus quanto a fragilidade do humano”.

                                                           III
Nicodemos Sena, nascido em Santarém do Pará, viveu em seu Estado natal até 1977. Em 1978, passou a residir em São Paulo, onde bacharelou-se em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e, mais tarde, em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). No início de 2000, recebeu convite para dirigir a redação do jornal A Província do Pará e a principal editora de Belém, a Cejup, trabalhando na capital paraense até o fim do ano, quando retornou a São José dos Campos-SP.

Insatisfeito com os primeiros contos que escreveu, dedicou-se a um projeto mais amplo, um romance que resultou na magnífica saga amazônica A Espera do Nunca Mais, de 870 páginas, editado pela Cejup, em 1999, seu livro de estreia. O livro, com suas lendas e mitos, mistério e sortilégio, matas e rios, igarapés e igapós, rendeu ao seu autor em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 anos, da União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro.

Em 2003, saiu à luz o seu segundo romance, A Noite é dos Pássaros, igualmente recebido com entusiasmo pela crítica, publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, de 3 de abril a 31 de julho, no jornal O Estado do Tapajós, de Santarém, e na revista eletrônica portuguesa TriploV. Ainda em 2003, A Noite é dos Pássaros foi publicado em formato livro (Editora Cejup, 136 pág.).

No mesmo ano, fragmentos de A Noite é dos Pássaros foram publicados na revista Palavra em Mutação (n º 2) e no site Storm Magazine,  ambos de Portugal. Ainda naquele ano, A noite é dos pássaros conquistou o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letra,s e, em 2004, recebeu menção honrosa no prêmio José Lins do Rego, da UBE, seção do Rio de Janeiro. Nicodemos Sena é nome reconhecido fora da Amazônia, tornando-se verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).

Em 2007, Sena criou a editora a LetraSelvagem, que tem como objetivo incentivar o gosto pela leitura e promover a linguagem literária, além de desenvolver atividades que estimulem a tomada de consciência pelas populações, povos e etnias submetidos a qualquer tipo de dominação. É ainda meta da editora defender a produção literária, especialmente a brasileira e latino-americana, em face dos problemas decorrentes da economia “globalizada” e dos interesses do capitalismo predatório, além de apoiar, produzir e incentivar gestões direcionadas ao resgate cultural das populações, povos e etnias marginalizados, visando à democratização do acesso aos bens culturais.

Em 2017, Sena publicou pela editora LetraSelvagem Choro por Ti, Belterra!,  obra escrita em prosa poética e formada por 19 episódios, em que reconstitui o dia em que fez viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra.

Na década de 1940, a cidade fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos necessários para movimentar os veículos militares. Adelto Gonçalves - Brasil

___________________________

A  Mulher, o Homem e o Cão, de Nicodemos Sena, romance, com apresentação de Oscar D´Ambrosio,  prefácio de Christina Ramalho e posfácio de Dirce Lorimier Fernandes. Taubaté-SP: Editora Letra Selvagem, 152 páginas, R$ 30,00, 2009. 
E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site:www.letraselvagem.com.br


_____________________________________________

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Brasil - Desindustrialização em marcha

SÃO PAULO – Quem acompanha as oscilações da pauta mundial das exportações sabe que o Brasil, nos últimos tempos, tem perdido espaço nas vendas de manufaturados, apesar dos esforços da Apex-Brasil, agência de promoção comercial do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC), para divulgar e reforçar a imagem do produto nacional no exterior por meio de participação de empresas em feiras e simpósios no País e lá fora.

Ainda bem que as exportações de commodities têm evoluído de maneira significativa, pois pelo menos mantém em certo equilíbrio a balança comercial. Pior seria se também tivessem entrado em faixa descendente, até porque o Brasil não tem a menor influência em suas cotações. Hoje, apenas 20% das vendas brasileiras ao exterior são de manufaturados, o que permite ao Brasil uma participação modesta de 1,3% nas exportações mundiais.

Obviamente, melhor seria se fosse o inverso, pois são os manufaturados que agregam valor e criam empregos, estimulando o mercado interno. Mas isso não se dá, entre outras razões, por causa dos elevados custos que incidem sobre o manufaturado nacional. E não são apenas os impostos que recaem diretamente sobre o produto nacional que tiram o poder de competição de seu preço.

Isso ocorre até mesmo onde não se imagina que haja perdas. É o caso do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que incide sobre o combustível dos navios que operam nas linhas domésticas. A princípio, a cabotagem nada tem a ver com o mercado internacional, mas isto não passa de um ledo engano.

Explica-se: as empresas armadoras, em função da necessidade de alcançar competitividade, têm construído navios cada vez maiores e formado joint ventures que permitem o transporte de cargas de um número cada vez maior de armadores. Acontece que, no Brasil, em razão das conhecidas deficiências de infraestrutura, há poucos portos preparados para receber esses megacargueiros. Assim, alguns portos, como o de Santos, mesmo com suas deficiências de calado, são erigidos hub ports. E muitas indústrias localizadas fora da região Sudeste são obrigadas a recorrer a um transporte doméstico de grandes distâncias, o que acaba por encarecer em demasia o produto.

O mesmo problema se dá também na importação. Ou seja, o produto chega ao porto de Santos e precisa ser transportado para outros Estados por navios de cabotagem, pois para longas distâncias o caminhão torna-se quase inviável. Sem contar a precariedade de algumas estradas. Ocorre, porém, que, enquanto o ICMS no combustível dos navios de longo curso é zerado, na cabotagem é cobrado.

Isso também tem contribuído para que a quantidade de empresas exportadoras sofra queda ano a ano, enquanto cresce de forma acelerada o número de empresas importadoras. Em outras palavras: o Brasil importa cada vez mais produtos manufaturados, reforçando o fenômeno da desindustrialização e suas consequências trágicas, como o fechamento de postos de trabalho. Milton Lourenço - Brasil


__________________________________

Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Portugal – Rutz, calçado de cortiça amigo do ambiente

De uma paixão por sapatos e do desejo de inovar e unir duas das maiores indústrias portuguesas nasceu a 4 de janeiro de 2012 a Rutz, que concilia da melhor forma as origens e tradições portuguesas na cortiça e no calçado com a inovação e a preservação do meio-ambiente. Os grandes responsáveis desta marca, sedeada em Lisboa, são Raquel Castro e Hugo Baptista. Rutz deriva do inglês “roots” e em português significa caminhos ou raízes.



A cortiça é o elemento comum a todas as coleções da marca, sendo depois combinada com outros materiais amigos do ambiente, como por exemplo as peles sem crómio que “não utilizam qualquer químico para a sua transformação”, explica a Rutz. Para a marca, a cortiça é uma matéria-prima com várias vantagens: é um material natural, à prova de água, respirável, altamente resistente, lavável, flexível e, acima de tudo, amigo do ambiente.

Com coleções “modernas, sofisticadas e elegantes” em que existe um “cunho de origem e de tradição”, a Rutz dispõe de uma gama de calçado de senhora, homem e criança, mas também marroquinaria e bijuteria para senhora e homem. A última novidade foi o lançamento de uma coleção de objetos para a casa, que inclui cerâmicas e copos. Na linha BASIC estão disponíveis alpergatas com um preço médio de 40 euros e no calçado mais premium os preços médios rondam os 150 euros no segmento mulher, 180 euros no segmento homem e 55 euros no calçado de criança. Se procura malas o valor médio é de 140 euros e na bijuteria ronda os 25 euros.

As peças da Rutz são totalmente produzidas em Portugal em seis fábricas, duas em São João da Madeira e as restantes na Benedita, em Alcobaça. A Rutz tem neste momento duas lojas de marca própria na Baixa de Lisboa e no LX Factory, mas as peças com o selo da marca também podem ser encontradas no Porto, na Batalha, em Vila Real, em Coimbra ou na loja online. Atualmente o mercado nacional representa cerca de 44 por cento das vendas da Rutz, que já exporta para os EUA, Canadá, Alemanha, Suíça, Bélgica, Itália, Espanha, Coreia do Sul e Austrália. In “I Like This” - Portugal