Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Galego

“Leio nas páginas do Galicia Confidencial umha informaçom sobre os problemas e riscos para o galego na era digital, feita a partir de um estudo realizado por investigadoras galegas para umha instituiçom europeia.

Polos vistos, o tal informe lamenta a escassa presença do galego no mundo das novas tecnologias e da internet, advertindo da ameaça que a globalizaçom supom para a sobrevivência do nosso património lingüístico e cultural. Como noutros estudos parecidos, conclui que é preciso investir mais em criar recursos em galego, investigar, inovar e desenvolver.

Nom é objeto destas linhas analisar tal estudo, muito menos despachá-lo a partir dumha notícia inevitavelmente superficial. Unicamente, aproveito para advertir sobre a focagem errada com que na Galiza vimos tratando os problemas, carências e desafios que a nossa comunidade lingüística enfrenta no ámbito das novas tecnologias e nom só.

Deveria ser já umha vulgar obviedade afirmar que pertencemos a umha comunidade lingüística nom só internacional, mas intercontinental, formada por um número crescente de falantes, estimado já nos últimos estudos em 240 milhons de pessoas. Umha das maiores comunidades lingüísticas do mundo, nascida muito tempo atrás neste canto do planeta chamado Galiza.

A esse facto soma-se um outro nom menos importante: o principal e mais populoso país dos que formam esse grande espaço, o Brasil, tem um peso crescente no cenário internacional e umha presença especialmente significativa no mundo das novas tecnologias, especialmente na internet.

Esta obviedade que acabei de formular é totalmente desconsiderada pola maioria de entidades e pessoas participantes, de umha forma ou outra, na política lingüística existente na Galiza. Somos, da comunidade de países de fala galega ou portuguesa, o país que mais necessita do reforço dessa comunidade internacional de falantes mas, paradoxalmente, somos o único cujas instituiçons públicas a desprezam ao ponto de continuarmos sem fazer parte do organismo institucional que os agrupa: a CPLP.

Todo um disparate que ninguém entende a partir de parámetros galegófilos e de puro utilitarismo num contexto de grave ameaça para a continuidade da nossa comunidade lingüística. Apelar a particularismos evidentes ou a barreiras artificiais como a ortográfica para manter o galego isolado do seu campo de jogo natural é condená-lo à precariedade e à morte lenta a que todos e todas assistimos.

Porém, a quem afirma que a ortografia é secundária e que mesmo dentro da escrita castelhanizante praticada polas instituiçons atuais é possível dar umha orientaçom diferente às relaçons entre a Galiza e a lusofonia,  deveremos responder que até agora a ortografia tem funcionado como umha clara e efetiva fronteira visual. De facto, hoje vemos como os defensores de um suposto possibilismo ortográfico combinado com um reintegracionismo teórico aderem acriticamente a campanhas pola galeguizaçom em ámbitos como o do software informatico ou as redes sociais, quando o bom senso deveria impor-se e reconhecer que nesse terreno temos já todo o caminho andado.

Eis a importáncia fundamental de umha verdadeira reforma ortográfica. Adiar a adoçom de umha ortografia substancialmente comum ao campo lusófono continuará a favorecer este absurdo isolamento auto-imposto e um gasto de energias preciosas em iniciativas totalmente estéreis, como a interminável produçom de materiais já existentes na nossa língua. Mudar a ortografia e, em simultáneo, fazer circular na Galiza todo o tipo de produtos culturais em português é dar um oxigénio imprescindível à nossa língua no seu território originário e permitirá umha rápida mudança na consciência social, valorizando as grandes potencialidades do galego como língua útil para o nosso povo.

Digamo-lo mais umha vez: o galego nom sofre nengumha ameaça. É um dos poucos idiomas em forte expansom demográfica, privilegiado pola globalizaçom em curso e cuja sobrevivência está garantida num futuro mais que imediato. O que está em causa é a própria comunidade lingüística e nacional galega.

A reorientaçom imediata da estratégia normalizadora poderá reincorporar-nos ao nosso espaço próprio sem perdermos a nossa milenária identidade galega. O continuísmo atual garante o nosso final como povo, nos braços de um regionalismo tam inofensivo como assimilável pola “riqueza e diversidade espanhola”. Maurício Castro – Galiza     in “Portal Galego da Língua”

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Reflexão

“É hoje que vivemos, de facto, as consequências da partida prematura de Neto que, apesar dos erros, em contextos em que dificilmente um homem do seu tempo e carácter contornaria, nos deixou um sinal claro de uma liderança criativa; e mesmo um sinal de arrependimento sobre os seus equívocos humanos, em direcção a uma verdadeira reconciliação nacional.

Não partisse Neto tão cedo, acredito hoje que com Holden Roberto (que cedo entendeu que nada se ganhava com lutas fratricidas) e mesmo com Jonas Savimbi, cujas motivações do tumultuado pensamento e acção política começam agora a ser reavaliados, teríamos hoje uma Angola diferente da que temos hoje, onde nenhuma liderança consegue erguer-se acima sequer de meros interesses familiares, num país onde tudo chegaria para todos. E é pena!” Marcolino Moco - Angola

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Cem

Passados três meses do início do blogue Baía da Lusofonia em que o protagonismo pertence à palavra, com origem na parte mais ocidental da europa, mais concretamente no noroeste da península ibérica, de expressão de língua galega e de expressão de língua portuguesa, chegámos ao número cem de textos apresentados.

Desses cem textos, vinte e quatro são da autoria do blogue, sendo os restantes, citações, poemas, duas traduções e dois textos de autor. O leque de citações vai desde o simples homem da rua, a professores, escritores, aos mais altos representantes das nações, desde a Galiza a Angola, dos E.U. da América e México à Suécia, de Moçambique a Timor-Leste, passando por Goa e Macau. Do Uruguai, Brasil, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Casamansa, Cabo Verde e Portugal.
Na Baía da Lusofonia mareiam simplesmente palavras levadas pelas naus e caravelas portuguesas que aportaram nas enseadas mais recônditas banhadas pelos mares e oceanos.
Essas palavras levaram conhecimentos, mas também destruições de costumes milenares, transmitiram alegrias e tristezas, carregaram amores mas também ódios, transportaram sorrisos e lágrimas, acenaram com a riqueza e criaram pobreza, apoiaram a formação de novas famílias através da miscigenação, mas ajudaram também a separar pais dos filhos, homens das mulheres.
Normalmente para a história ficam sempre os lados negativos e para esses há que pedir desculpa, mas no fundo fica também uma língua, que será o símbolo da unidade nacional, pois é uma língua que por onde se fala define fronteiras e nesse aspecto é um facto único, com é o exemplo do grande Brasil.
Para um amador com pouco tempo livre e com uma actividade profissional muito diferente do conteúdo da Baía da Lusofonia é com agradável surpresa que vê crescer, mês após mês, os visitantes deste blogue que estando sedeado em Portugal, tem como origem de 90% dos leitores quatro países, Portugal 29,5%, Rússia 27,5%, Alemanha 18% e EUA 15%. Os restantes 10% distribuem-se por uma vintena de países.
A Baía da Lusofonia é um espaço livre, simples, aberto a todos aqueles que através da palavra de expressão galega e portuguesa, pretendam exprimir opiniões, mas sempre com respeito, sem agressões verbais. Obrigado. Baía da Lusofonia


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Porta

A Porta

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:

- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:
- Não deixa entrar, esses não são a maioria.

Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:

-Não abre! Esses não são originais!

E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:

- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...

E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:

- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!

O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.

Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.

Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

Mia Couto - Moçambique

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Amazônia

Para decifrar o enigma amazônico

                                                                                 I

            Assassinado aos 43 anos de idade por um desafeto, que lhe conquistara a mulher e haveria de assassinar seu filho – sempre em legítima defesa, diga-se de passagem –, Euclides da Cunha (1866-1909) ainda deveria dar outras páginas memoráveis à Literatura de expressão portuguesa, não tivesse tido um fim tão inglório e prematuro. Mas, seja como for, o que deixou foi suficiente para alçá-lo ao panteão de nossos escritores mais memoráveis, ao lado de José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (1939-1908), Lima Barreto (1881-1922), Graciliano Ramos (1892-1953), Guimarães Rosa (1908-1967) e Jorge Amado (1912-2001).

            Ao contrário destes, porém, Euclides da Cunha não escreveu ficção, ainda que só da pena de um magistral ficcionista poderiam sair as imagens que construiu em Os sertões da epopéia da guerra de Canudos, confronto entre as forças do Exército brasileiro e integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro nos anos de 1896-1897 no interior do Estado da Bahia, no Nordeste, uma região historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, que à época passava por uma grave crise econômica e social.

            Não é um episódio de que se possa orgulhar o Exército brasileiro, que, mais uma vez, de 1964 a 1985, seria usado para massacrar o seu próprio povo, em defesa dos interesses dos poderosos, em vez de defender o território nacional contra o inimigo externo, como lhe compete constitucionalmente.

            Entender o gênio euclidiano é a que se propõe o crítico Fábio Lucas no ensaio “Euclides da Cunha, escritor e pensador da nacionalidade: a fase amazônica”, capítulo II do livro Peregrinações amazônicas – História, Mitologia, Literatura, primeiro volume da coleção À Margem da História, de ensaios e estudos, que a editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, acaba de colocar no mercado. Poucos críticos terão analisado tão bem o caráter e a obra de um homem excepcional, “cuja face mais extraordinária – razão de sua notável importância nos quadros de nossa formação – parece-nos encontrar-se no seu poder de expressão”.

            Diz Fábio Lucas que nenhum outro aspecto da vida e da obra de Euclides da Cunha é mais importante que o de escritor. Para ele, foi graças ao seu estilo de escrever que o escritor pôde suplantar as limitações enganosas da ciência de seu tempo. “O temperamento, neste caso, superou a educação”, diz o crítico, com acerto. Para ele, apesar de firmemente seduzido pelo pensamento racista e de predomínio do meio sobre o homem, Euclides da Cunha nunca se deixou levar por ideias feitas e prontas.

            Se a princípio e a distância se deixou levar pelas insinuações das classes abastadas de que o grupo de António Conselheiro não passava de um braço da Monarquia em conluio com potências estrangeiras, no cenário da luta logo constatou que os filhos da mestiçagem, que a ciência dizia que eram a causa da degeneração e amesquinhamento do povo brasileiro, eram apenas vítimas de um sistema de produção latifundiário e patriarcal que ainda hoje vigora em boa parte do território brasileiro, a ponto de a pretensa esquerda que assumiu o poder pelas urnas em 2002 ter se mancomunado com alguns dos “vice-reis” do Norte – cujas famílias dominam alguns Estados brasileiros – a pretexto de preservar a governabilidade.

            De fato, observa Fábio Lucas que Euclides da Cunha não tentou conduzir os acontecimentos para colocá-los de acordo com ideias preestabelecidas; antes, deixou-se levar por eles. “Pode-se observar até que, à medida que envelhecia, ia perdendo o apreço pela ciência em que tão confiadamente acreditou e mais se agarrava à dialética dos fatos. A certa altura, já admitia que a verdade fosse móvel”, diz.

                                                                                II

            Mas onde entra a Amazônia na vida e na obra de Euclides da Cunha? Fábio Lucas mostra: já escritor famoso, em 1904, o autor de Os sertões foi convidado pelo ministro Rio Branco, das Relações Exteriores, para chefiar a comissão brasileira que, com a comissão peruana, iria definir as fronteiras do Alto do Rio Purus. Na difícil viagem que empreendeu, o escritor tomou notas para escrever uma obra a que desde logo atribuíra o título O paraíso perdido, que considerava o seu “segundo livro vingador”.

            Na região amazônica, Euclides da Cunha encontraria a mesma pobreza que o deixara compungido no sertão da Bahia. Pior ainda: atraídos pelo comércio da borracha, extraída do látex da seringueira, contrabandistas, aventureiros e atravessadores infestavam a região. “Havia companhias de transportes que aliciavam milhares de famílias cearenses, fugidas da seca e da fome, para trabalharem nos seringais, mediante um regime de subordinação em nada diferenciado daquela do período da escravatura”, conta Lucas, citando Euclides da Cunha: “(...) O seringueiro trabalhando cada vez mais para ser escravo”.

            Da viagem, como se sabe, Euclides da Cunha retornaria para uma vida conjugal tumultuada que acabaria por provocar o desatino que lhe tiraria a vida. Nunca escreveria Um paraíso perdido, que seria organizado por Leandro Tocantins com “ensaios, estudos e pronunciamentos sobre a Amazônia” que o escritor deixaria dispersos. 

                                                                                III

            Com olhar seletivo, Fábio Lucas estabelece um roteiro seguro para quem quiser conhecer não só a Amazônia de Euclides da Cunha como a de outros grandes escritores, poetas, ficcionistas, historiadores, sociólogos e filósofos, como João de Jesus Paes Loureiro, Olga Savary, Thiago de Mello, Jorge Tufic, Astrid Cabral, Aníbal Beça, Age de Carvalho, Márcio Souza, o português Ferreira de Castro, Abguar Bastos, Inglez de Suza, Dalcídio Jurandir, Benedicto Monteiro, Leandro Tocantins, José Veríssimo, Arthur Cezar Ferreira Reis, Benedito Nunes, Nicodemos Sena e outros tantos nomes representativos que passam pelas páginas deste livro, desde já, imprescindível para quem ousar decifrar o enigma amazônico.

            Fábio Lucas enriquece o painel das “letras amazônicas”, ao incluir em seu livro também as obras de Ferreira Gullar e Nauro Machado, grandes poetas do Maranhão. É possível que o desatento leitor faça a objeção segundo a qual o Maranhão não faz parte da Amazônia, embora situado numa zona de transição entre o Norte e o Nordeste brasileiros. Mas é preciso lembrar que, além de fortes vínculos geográficos com a Amazônia, há vínculos históricos: em 1751, o Estado do Maranhão passou a intitular-se Estado do Grão-Pará e Maranhão e sua capital foi transferida de São Luís para Belém, o que durou até 1772, quando aconteceu uma nova divisão em dois Estados: o Estado do Maranhão e Piauí, com sede em São Luís, e o Estado do Grão-Pará e Rio Negro, com sede em Belém. Tudo isso justifica o roteiro que Fabio Lucas traçou.

            Peregrinações amazônicas constitui, portanto, uma viagem mais sentimental do que geográfica, através de vasta produção literária com temática “amazônica” ou na Amazônia ambientada. O resultado é uma análise dos melhores livros que já foram escritos sobre a Amazônia ou ambientados na realidade amazônica. O segundo volume desta coleção, À Margem da História, cujo título é em homenagem a Euclides da Cunha, será um livro de mais de 800 páginas, Escritores Brasileiros do Século XX, da crítica, escritora e professora titular da Universidade de São Paulo (USP) Nelly Novaes Coelho.

                                                                               IV

            Fábio Lucas (1931) nasceu em Esmeraldas-MG e é professor, ensaísta, tradutor, crítico e teórico da literatura. Lecionou em seis universidades norte-americanas, cinco brasileiras e uma portuguesa. Dirigiu o Instituto Nacional do Livro em Brasília bem como a Faculdade Paulistana de Ciências e Letras. Autor de mais de 50 obras de crítica e ciências sociais, é considerado um dos mais importantes críticos e conferencistas internacionais de literatura brasileira.

            Em 1953, graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais e, em 1963, concluiu doutorado em Direito Público em Economia e História das Doutrinas Econômicas pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nessa universidade, tornou-se professor de Teoria da Renda e Repartição da Renda Social na Faculdade de Ciências Econômicas. Nos primeiros tempos da ditadura militar (1964-1985), sofreu perseguições políticas: foi obrigado a deixar a disciplina que lecionava, o que o levou a partir para o exterior.

            Em sua extensa produção, destacam-se Poesia e prosa no Brasil: Clarice, Gonzaga, Machado e Murilo Mendes (1976), Vanguarda, História e ideologia da literatura (1985), Fontes literárias portuguesas (1991), Do barroco ao moderno (1989), Mineiranças (1991), Cartas a Mário de Andrade (1993), Jorge de Lima e Ferreira Gullar, o longe e o perto (1995), Luzes e Trevas, Minas Gerais no século XVIII (1998), Murilo Mendes, poeta e prosador (2001), Literatura e comunicação na era da eletrônica (2001), Expressões da identidade brasileira (2002), O poeta e a mídia: Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (2009), O poliedro da crítica (2009), O centro e a periferia de Machado de Assis (2010) e Ficções de Guimarães Rosa (2011). Na ficção, escreveu o romance A mais bela história do mundo (São Paulo: Global, 4ª ed. 2012).

            Ganhou vários prêmios de crítica literária e foi presidente, por cinco mandatos, da União Brasileira de Escritores (UBE). Como vice-presidente da Associação Brasileira de Direitos Repográficos (ABDR), destacou-se pelo combate à pirataria e à fraude do direito autoral. Foi ainda membro do Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA) de 1989 a 1991. Recentemente, presidiu a comissão de escritores que redigiu o Manifesto dos Escritores Brasileiros, que resultou das discussões do Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em novembro de 2011, em Ribeirão Preto-SP.

            Este articulista orgulha-se de ter tido o professor Fábio Lucas como integrante da banca que aprovou sua tese de doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), em 1997, sobre o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), Gonzaga: um Poeta do Iluminismo (vida e época), ao lado dos professores Massaud Moisés (orientador), Lênia Márcia Medeiros Mongelli e Francisco Maciel Silveira e do embaixador, poeta e ensaísta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras. Adelto Gonçalves - Brasil
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Regresso

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá no seu portão.
é um bater amigo
que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva
que há tanto tempo não batia assim…
ouvi dizer que a Cidade Velha
- a ilha toda –
em poucos dias já virou jardim…

Dizem que o campo se cobriu de verde
da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde
- é a tempestade que virou bonança…

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
recobre a força e chegue-se ao portão
a chuva amiga já falou mantenha
e bater dentro do meu coração

Amílcar Cabral – Guiné Bissau

domingo, 26 de agosto de 2012

Crise?

Uns dias passados numa zona considerada das mais pobres de Portugal, a margem esquerda do Guadiana, uma palavra várias vezes me veio à mente.
Enquanto passeava salutarmente a pé pela terra onde estive alguns dias, verifiquei que a população só andava de automóvel, para ir ao café, para se deslocar ao mini mercado, ou apenas para dar uma volta pela aldeia.
Se ao menos os impostos ficassem em Portugal…mas não, o combustível está mais barato 20 cêntimos na gasolina e seis cêntimos no gasóleo e toda a gente vai abastecer-se na vizinha Espanha.
Reparei também que os jovens estão mais obesos, pudera, pois andar de bicicleta numa terra toda ela plana é que não! Quem tem mais de 18 anos só anda de carro! Como se ter um automóvel fosse hoje em dia ainda um luxo, nesta terra ainda não perceberam que todo o mundo tem automóvel!
Pensei na crise de 1983, onde uns dias da semana andavam os carros com matrícula par, nos outros os ímpares, mas agora como não temos soberania, há zonas de Portugal que vivem com toda a normalidade o desemprego, os aumentos diários dos bens essenciais e, todas as questões que ficarão para ouros textos, mas por onde eu andei a palavra que mais vezes me veio à mente…a palavra crise anda ausente por aquelas paragens. Baía da Lusofonia


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
batendo as asas pela noite calada
vêm em bandos com pés veludo
chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
e lhes franqueia as portas à chegada
eles comem tudo eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
A toda a parte chegam os vampiros
poisam nos prédios poisam nas calçadas
trazem no ventre despojos antigos
mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo
senhores à força mandadores sem lei
enchem as tulhas bebem vinho novo
dançam a ronda no pinhal do rei
Eles comem tudo eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
No chão do medo tombam os vencidos
ouvem-se os gritos na noite abafada
jazem nos fossos vítimas dum credo
e não se esgota o sangue da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
e lhe franqueia as portas à chegada
eles comem tudo eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada
José Afonso - Portugal








segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sustentabilidade

“Durante todo a tarde estivemos falando sobre o desenvolvimento sustentável, de como retirar as imensas populações da pobreza. Que se passa nas nossas cabeças com o modelo de desenvolvimento e consumo que actualmente vivem as sociedades ricas? Faço esta pergunta: O que se passaria com este planeta se os indianos tivessem a mesma proporção de automóveis por família, que os alemães possuem? Quanto oxigénio necessitaríamos para podermos respirar? Mas claro! O mundo terá hoje os elementos materiais para que seja possível que sete ou oito mil milhões de pessoas possam desfrutar do mesmo nível de consumo e desperdício que têm as mais opulentas sociedades ocidentais? Será possível? Ou será que teremos que ter um dia, um outro tipo de discussão? Porque nós criámos uma civilização em que estamos, filha do mercado, filha da competição, que se deparou com um progresso material portentoso e explosivo.

 Mas a economia de mercado criou sociedades de mercado, e nós deparamos com esta globalização que significa olhar por todo o planeta e perguntamos, estamos governando a globalização ou é ela que nos governa? É possível falar de solidariedade e que estamos todos juntos numa economia baseada na concorrência impiedosa? Até onde chega a nossa fraternidade?
Nada disso eu digo, para negar a importância deste evento, pelo contrário, o desafio que temos pela frente, é de uma magnitude de carácter colossal e a grande crise não é ecológica, é política! O homem não governa hoje! Há forças envolvidas que governam o homem e a vida. Porque não viemos ao planeta para nos desenvolvermos, em termos gerais, nós viemos ao mundo para tentarmos ser felizes, pois a vida é curta e rapidamente se vai, nenhum bem vale mais do que a vida e isto é elementar! Mas se a vida vai passando, e nós trabalhando e trabalhando para consumir sempre mais e a sociedade de consumo é o motor, porque em definitivo, se paralisa o consumo, a economia pára e se parar a economia o fantasma da estagnação económica aparecerá para cada um de nós.
Mas este híper consumo que está agredindo o planeta e que tem de ser acelerado, fazendo coisas que durem pouco, porque é preciso vender muito, E uma pequena lâmpada eléctrica que não pode durar mais que mil horas, mas existem lâmpadas que podem durar 100 mil, 200 mil horas, contudo estas não podem ser feitas pois o problema é o mercado, porque temos de trabalhar e temos de sustentar uma civilização que usa e deita fora e com isto estamos num círculo vicioso.
Estes são problemas de carácter político, que estão dizendo que está na hora de começar a lutar por outra cultura, não se trata de voltar aos tempos dos homens das cavernas, ou ter um momento de atraso, mas não podemos continuar indefinidamente sendo governados pelo mercado, mas sim temos de o governar. Por isso eu digo, na minha humilde maneira de pensar, que o problema é de carácter político, porque os antigos pensadores, Epicúreo, Séneca, os Aymaras, definiam: Pobre não é o que tem pouco, mas sim, que na verdade necessita infinitamente de muito, e deseja, deseja, mais e mais. Isto é claramente de carácter cultural. Então, eu saúdo os esforços e acordos que são feitos. E eu vou acompanhá-los como governante, porque sei que algumas coisas que estou a dizer perturbam!
Mas devemos perceber que a crise da água e a agressão ao meio ambiente não são a causa, mas sim o modelo de civilização que construímos e no que temos de rever no nosso modo de vida, pois eu pertenço a um pequeno país, o Uruguai, muito bem dotado de recursos naturais para viver. No meu país há três milhões de habitantes, um pouco mais, três milhões e duzentos mil habitantes, mas há 13 milhões de vacas, das melhores do mundo e cerca de oito a dez milhões de excelentes ovelhas, o meu país, o Uruguai, é exportador de alimentos, de lacticínios, de carne, é uma planície onde quase 90% da terra é aproveitável.
Os meus camaradas trabalhadores lutaram muito pelas oito horas de trabalho e agora estão conseguindo o direito às seis horas. Mas aqueles que alcançaram seis horas, conseguiram dois empregos, portanto, trabalham mais do que antes. Por quê? Porque eles têm de pagar uma infinidade de despesas, a moto que comprou, o automóvel que comprou, e pagar contas e mais contas…e quando um dia acordar perceberá que é um velho reumático como eu e assim se passou a vida! E um dia fará esta pergunta: Será este o destino da vida humana? Estas coisas são muito elementares, o desenvolvimento não pode ser contra a felicidade, tem que ser a favor da felicidade humana, do amor ao planeta Terra, às relações humanas, do amor aos filhos, de ter amigos, ter somente o necessário.
Precisamente, porque este é o tesouro mais importante que temos, quando lutamos pelo meio ambiente, devemos lembrar que o primeiro elemento do meio ambiente se chama Felicidade Humana. Muito obrigado.” José Mujicas - Uruguai
Tradução: Baía da Lusofonia

domingo, 19 de agosto de 2012

Mineola

A língua portuguesa vai passar a ser ensinada como língua estrangeira opcional na escola secundária de Mineola, em Long Island, Estado de Nova Iorque, a par do espanhol, francês, italiano e latim.
A escola tem uma comunidade escolar lusófona aproximadamente de 200 alunos num total de mil, que a partir do próximo mês de Setembro, poderão optar pela aprendizagem do português.
Para esta decisão muito contribuiu a intervenção do senador estadual de Nova Iorque, Jack Martins, um lusodescendente que já assumiu a presidência da Câmara de Mineola, conseguindo que a escola obtivesse do Departamento de Educação Estadual uma licença de excepção para que o português figurasse no currículo de uma escola pública.
Jack Martins afirmou à comunicação social: “O nosso objectivo não é só corresponder aos anseios da comunidade portuguesa local, mas também aos dos outros grupos étnicos que começam a despertar agora para a importância económica do português como língua internacional.” Baía da Lusofonia

Áfricas

Cabrita e o futuro da lusofonia (*)

I
            A África não dorme. Vive em eterna vigília. Essa é a metáfora que explica A maldição de Ondina, do português-moçambicano António Cabrita (1959), livro que tem tudo para empolgar o leitor brasileiro não só por suas qualidades literárias como pelas marcas de várias culturas afins ao Brasil que impregnam suas páginas. Como toda boa metáfora, o título A maldição de Ondina tem duplo sentido. Ou seja, explica o fenômeno que faz parte da natureza intrínseca dos golfinhos, mamíferos que não podem dormir jamais, já que, para sobreviver, necessitam vir à tona de cinco em cinco minutos para respirar. E, portanto, não podem esquecer a condição em que vivem, sob o risco de desaparecerem.
            Não se pode esquecer que a referência à Ondina, ninfa das águas na mitologia germânica, serve também para qualificar uma rara síndrome – em 2006, havia apenas 200 casos conhecidos no mundo –, cujas formas graves exigem que a pessoa receba ventilação mecânica 24 horas por dia. Ou seja: vigília ininterrupta. 
            Mas explica também o sentir e o estar africano ao longo dos séculos. Um povo – feito de muitas nações, etnias e tradições milenares – que está condenado à permanente vigilância, diante daqueles povos que se mantêm sempre à espreita para espoliá-lo, como fizeram os europeus por séculos a fio. E, agora, ao que parece, fazem os chineses, os colonizadores do século XXI, que estão a explorar as florestas do Norte de Moçambique até o ponto de transformá-las em vasto deserto. Sem esquecer aqueles que saem do próprio povo africano – que, afinal, é resultado de muitas e distintas etnias – e que, no poder, acabam também por espoliá-lo. Mas essa não é uma característica do africano, mas da espécie humana, seja lá qual for a sua matiz de cor.
            Portanto, não se quer dizer aqui que, se a África tivesse ficado imune à presença do europeu e de povos como indianos, hindus, goeses, mouros, cojás e tantos outros que a assolam desde tempos avoengos, teria tido um destino melhor. Ou que, hoje, seria um continente sem problemas, um paraíso terrenal em que Deus pudesse passear tranqüilo no jardim pela viração do dia.
            Pelo contrário. É provável que estivesse imerso em mais obscurantismo, ao menos sob o prisma da visão eurocêntrica que nunca iremos perder. Não é isso o que se contesta aqui: até porque essa é uma opção irremediavelmente perdida na História. E que remete ao lamento do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) sobre a vida que podia ter sido – e que não foi.
            A África é o que é hoje. E ponto final. Entrecruzamento de raças e etnias, suas mazelas – a miséria de muitos povos, a falta de perspectivas para muitos, a opressão de uma classe sobre outras – são iguais às de todos os homens que vivem na Terra – uns mais, outros menos. Uma espécie de Brasil nenhum pouco às avessas. Se aqui o partido que se dizia de esquerda e defendia os oprimidos chegou ao poder pelas vias da democracia chamada burguesa e, naturalmente, não o quer largar, ainda que tenha de recorrer a meios inconfessáveis, ao estilo das antigas máfias napolitanas, lá o partido dos oprimidos, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), alcançou o poder pela força das armas, depois de ter, primeiro, colocado o colonialismo para correr e, em seguida, em meio a anos de contendas e mortandades, destruído pelos fuzis adversários que tinham os mesmos objetivos.
            No poder, num congraçamento entre “marxistas-leninistas arrependidos” e oportunistas incrustados nas máquinas partidárias, tanto lá como cá, os partidos e seus dirigentes logo esqueceram os miseráveis que tanto defendiam, deixando-se levar pelas delícias do dinheiro fácil das grandes corporações nacionais e internacionais, que, afinal, ninguém é de ferro e a vida é uma só e tem de ser vivida à larga, ainda que à custa da dilapidação do patrimônio público, da corrupção generalizada, do gangrenamento da vida da nação e da destruição dos bens naturais do país. Tudo em troca de “consultorias”, “sobras de campanhas” ou “numerário não contabilizado”, conhecidos eufemismos brasileiros para a maldita taxa de corrupção e outras formas de enriquecimento ilícito.  Obviamente, sempre revestidas por “bazófias patrióticas”, como diria o autor.
            É o que se pode sentir neste romance de Cabrita, um retrato de uma África pouco conhecida no Brasil, mas facilmente reconhecível, que se desenha na vida de meia-dúzia de personagens: César, luso-moçambicano, professor e escritor de romances policiais; Raul, amigo de César, policial; Beatriz, mulher de César e professora universitária na área de Literaturas Africanas; Argentina, concubina de César por dez anos e gestora numa ONG; Aurora, antiga ama-seca de César e sua cozinheira; e Filipa, irmã de César e médica. Além de outros personagens secundários apenas citados, como a famosa atriz Rita Hayworth (1918-1987), estrela de Gilda (1946), que, entre outros casamentos, viveu com o príncipe Aly Khan, de 1949 a 1953, num palácio na Ilha de Moçambique, para quem, no romance, Aurora – provavelmente, macua ou maconde – teria prestado serviços culinários.
            Por trás de tudo, um pano de fundo facilmente reconhecível: uma estrada de terra batida é aberta só para que presidentes (das câmaras) de duas cidades e secretários do partido se visitem; um presidente da câmara de Maputo é atropelado de modo acidental, mas ninguém acredita na versão oficial; enfim, crimes que nunca se explicam, como aquele com o qual o policial Raul se vê às voltas com investigações a respeito de pessoas que desviaram dinheiro para o partido, mas para os quais o partido volta as costas. Como nesse tipo de regime o agente policial anda sempre sobre o fio da navalha, dependendo das facções que estão no poder, Raul  trata de colocar as barbas de molho, pois teme que o seu fim possa estar próximo. E pede a César, que nunca teve filhos, que leve o seu “miúdo daqui para fora”, pois não quer que fique com a mãe, em Quelimane,  pois “isso seria condená-lo a uma vida medíocre...”.
                                                                                II
            Observador arguto do linguajar moçambicano, Cabrita constrói os diálogos com fidelidade à oralidade, o que permite suspeitar que, em pouco tempo, o idioma de Camões estará totalmente substituído pelo de Shakespeare não só em terras que foram do sultão Mussa Bin-Mbiki como em todo o antigo e vasto império Monomotapa e nas antigas terras do reino do Ndongo, cobrindo todo o “mapa cor-de-rosa” imaginado, um dia, pelos colonialistas lusos. Até porque a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como organismo internacional, não passa de uma bela fantasia. E, até prova em contrário, pouco faz em defesa da lusofonia. Que o digam os rebeldes da Casamansa, província do Senegal, que desde 1982 empreendem uma inglória guerra de guerrilha para se livrar da opressão do governo de Dakar e virar país independente na órbita da CPLP.
            Cabrita nasceu português de quatro costados, pois é do Pragal, freguesia do concelho de Almada, cidade do distrito de Setúbal, que fica à entrada do rio Tejo, em frente a Lisboa.  Mas, como muitos de seus ascendentes, achou de tentar descobrir na África, não a árvore das patacas dos quinhentistas, porém outra maneira de viver. Quem sabe, menos morna e asséptica, porque sob o sol africano e em meio a ameaças físicas e até contagiosas. Como gosta de viver na contramão, foi para Maputo há poucos anos, a uma época em que raros lusos se dispõem a ir para a África e os que de lá retornaram choram até hoje o “império colonial derramado”. Não se arrependeu, pois encontrou material, o chamado “tecido da vida”, para escrever novas e surpreendentes histórias como estas que o leitor brasileiro tem a oportunidade de conhecer.
                                                                               III
            O que se lê neste romance, para quem conhece a vida nas favelas e subúrbios das grandes e médias cidades brasileiras, não haverá de surpreender. Talvez uma ou outra expressão autóctone que o escritor esclarece devidamente em notas de rodapé. Um personagem era bem visto pela comunidade porque colocara a filha a estudar – já estava na 11ª classe –, ainda que o seu verdadeiro negócio fosse o tráfico. Outro, que exibia uma cara da ratazana, tinha duas mulheres e nove filhos e vivia de biscates. Um terceiro, professor primário, fora abandonado pela mulher, depois de tê-la espancado até quase à morte, com oito meses de gravidez, por causa de ciúmes do pastor.
            Em meio a uma natureza paradisíaca, a violência doméstica é corriqueira em algumas aldeias, onde o isolamento parece enlouquecer os homens. “As pessoas catanavam-se à primeira, por medo, cativos. À mínima tensão o marido acusava a mulher de feitiço e a família dele acabava por cataná-la, a cobro da noite (...)”, diz Beatriz. Catanavam-se, ou seja, cortavam-se com facão.
            O estilo de Cabrita é de fácil e envolvente leitura, ainda que os capítulos em flash nem sempre permitam acompanhar o foco da narrativa ou o fio-condutor da trama com facilidade, exigindo novas e detidas leituras. O texto, porém, vale por si mesmo, pois não deixa de explorar todas as técnicas desenvolvidas pelos grandes mestres da literatura. Com mestria, Cabrita recorre ao discurso indireto livre sempre que pode: “(...) A sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar a casa e levar as crianças, advertindo-a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o polícia do sétimo”.
            A história, porém, é conduzida em torno de César, uma espécie de alter ego do autor, professor, intelectual que vive rodeado de livros, casado com Beatriz, mas que teve uma amante com o sugestivo nome de Argentina. Filho de “boa família portuguesa”, que é como se diz daquelas famílias que conseguiram amealhar um bom patrimônio e dinheiro no banco, César não hesita em chantagear o pai, em troca de que este o deixe levar consigo a amante negra para com ele estudar em Lisboa. Afinal, o pai sabe que ele sabe de sua segunda mulher, “a quem instalara casa nas Torres Vermelhas, em Maputo”. O silêncio vem “em troca de uma passagem para Argentina e de um aumento chorudo na mesada”.
            Se não conseguiu entrar no curso de Direito como o pai ansiava, enquanto Argentina concluía o de Economia, César ganhou fama com seu primeiro romance policial, a que se seguiram outros. Quando se sentia secar por dentro, retornava a Moçambique em busca de reciclagem e renovação. Depois de anos com Argentina como amante, resolve casar a sério com a professora Beatriz, talvez em busca de uma união estável. Mas aqui não há como deixar de pensar que, para ele, as “pretas” só servem como amantes, ainda que Argentina seja uma mulher extremamente culta. Ranço do racismo colonialista, quem sabe. Mas, quando o casamento com Beatriz entra na fase morna, César volta a Moçambique, atrás novamente de Argentina, que, a essa altura, também voltara para a África de olho num mestrado no Zimbábue.
            Quando está às vésperas de reatar com Argentina, quem sabe para finalmente constituir uma família e uma velhice tranqüila para ambos, o destino o leva para outro rumo. Por lealdade a Raul – morto numa cilada em Quelimane, provavelmente por um colega de profissão, vítima de alguma intriga política –, terá de assumir o filho do outro para colocá-lo longe da África. E garantir-lhe uma vida melhor.
            Eis a metáfora de volta: na África nunca ninguém pode dormir, o que significa que não se pode esquecer o passado, essa assombração que vai aonde quer que se vá. Em outras palavras: como não podem esquecer o que lhes fizeram, os africanos não conseguem superar o ressentimento e atingir o perdão. Nem perdoar os outros nem a si mesmos. Essa é a maldição que paira sobre a África. A maldição de Ondina. 
                                                                               IV
            António Cabrita publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores (1979), Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo (Teorema, 2008), Carta de Ventos e Naufrágios (Teorema, 1998) e Cegueira de Rios (Relógio de Água, 1994). Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico literário e de cinema de 1988 a 2004 no semanário Expresso, de Lisboa é também editor das edições Íman, diretor da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para o cinema. Adelto Gonçalves - Brasil
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(*) Posfácio do livro A Maldição de Ondina, de António Cabrita (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2011).
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage -- o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

sábado, 18 de agosto de 2012

Namíbia

O Governo da Namíbia vai solicitar a adesão do país a membro observador associado da CPLP, tendo instruído o Ministério dos Negócios Estrangeiros para que envie o respectivo pedido formal ao Secretariado Executivo da CPLP.

A Namíbia faz fronteira a norte com Angola, obteve a sua independência em 1990 e tem uma população lusófona de cerca de 110 mil habitantes, correspondendo a 5% do total, maioritariamente angolanos, mas com uma pequena comunidade de portugueses que ronda os 2 500 indivíduos.
A Namíbia pretende juntar-se à Guiné Equatorial, Ilha Maurício e Senegal que já obtiveram o estatuto de membro observador associado. Baía da Lusofonia

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as mocas mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato da Cruz - Angola

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Francisco

Francisco José de seu nome nasceu a 20 de Outubro de 1965 na antiga maternidade do Hospital de São José em Lisboa.
A sua infância foi igual a qualquer criança da sua idade, floriu e cresceu no seio da sua família alentejana. Em plena juventude uma peritonite aguda lançou-o para as portas da morte, travando um combate, que quando já parecia irremediavelmente perdido, uma luz, ténue, começou a desenvolver-se e trouxe-o de novo para a convivência dos seus entes queridos, embora com sequelas, que o marcaram para o resto da vida.
Como dizia São Bernardo, durante toda a sua existência teve como lema, o trabalho, a honra e a honestidade.
No passado dia 13 de Agosto de 2012, com 46 anos de idade, o Francisco quando regressava a casa, na Venteira, cidade da Amadora, depois de um dia de trabalho, foi surpreendido por um ataque cardíaco fulminante, que não o permitiu ter desta vez, direito a um combate pela vida. Paz à sua alma. Baía da Lusofonia
Em memória de Francisco José Estevão dos Reis (1965 – 2012)

Casamansa


“Depois da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Federação do Mali, que reunia também Senegal e Casamansa. Em 1947, com a liberação das actividades políticas pelas autoridades coloniais, surgiram o Bloco Democrático Senegalês, comandado por Leopold Senghor, e o Movimento das Forças Democráticas da Casamança, que só optou pela luta armada a partir de 1982.

Proclamada a independência da Federação em 1958, o Mali, dois anos mais tarde, retirou-se da aliança porque exigia que a capital fosse Bamako em vez de Dacar. Casamansa ficou, então, unida ao Senegal por um documento que previa a coalizão por duas décadas. Mas, em 1980, Senghor entendeu que, para o bem das duas nações, a Casamansa deveria continuar unida ao Senegal. Quando ele já não estava no poder, ocorreu a tragédia de Zinguinchor.

Dos 3,5 milhões de habitantes, apenas 10% são alfabetizados e aprenderam obrigatoriamente um pouco de francês. O povo fala mesmo o idioma diola e o crioulo português. Só alguns integrantes da elite, que estudam em França, usam o francês. As ligações com o mundo lusófono são mais fortes. Até porque Portugal esteve lá 462 anos, enquanto a presença francesa não passou de oito décadas.

Apesar do esforço de Dacar para erradicar a cultura lusa, há alguns monumentos em ruínas que testemunham a presença portuguesa. Mas, em razão da repressão, não há na Casamansa nenhum jornal ou emissora de rádio em língua portuguesa. Só entram jornais em francês impressos em Dacar.” Adelto Gonçalves - Brasil