Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pirataria

            O novo canal do Panamá que tem inauguração prevista para o próximo ano (2014), no centenário do primeiro, está a ser construído ao lado do actual e vai permitir a passagem de navios de grande porte, os “post-panamax”.


            Além de melhorar as transacções comerciais entre Oriente e Ocidente, o canal também irá reduzir a problemática da pirataria marítima, limitando a passagem de navios no Estreito de Malaca e no corno de África, duas das principais regiões onde regularmente se assiste a assaltos a navios mercantes.

           A terceira importante  região onde a pirataria tem  atuado é o Golfe da Guiné, responsável por 19,5% dos ataques conhecidos em 2012, acontecendo o último, nesta região, no dia 02 de Fevereiro de 2013, quando o petroleiro “Gascogne” que partira do porto principal da Costa do Marfim, Abidjan, a 31 de Janeiro, foi assaltado por piratas que se transportavam em pirogas nigerianas.

          O “Gascogne”, navio  francês  com  bandeira luxemburguesa,  tem 19 membros de tripulação, sendo do Togo a naturalidade da maioria dos marinheiros a bordo e transportava 3 mil toneladas de diesel. Em Janeiro, tinha sido assaltado um navio com bandeira do Panamá, em pleno porto de Abidjan, o mesmo acontecendo em Dezembro passado, com um navio de bandeira grega.  

            O avolumar de investidas contra a livre circulação de navios e respectivas mercadorias, tem preocupado as autoridades da região, onde se encontram dois pequenos países da CPLP, São Tomé e Príncipe e a Guiné Bissau, além da Guiné Equatorial país candidato.

            Destes três países, apenas a Guiné Equatorial começou a estruturar a sua marinha, adquirindo navios de guerra que salvaguardem a sua soberania. Por seu lado, há alguns anos São Tomé e Príncipe solicitou a Portugal um intercâmbio militar, que permitisse que a colaboração portuguesa fosse dissuasora a um eventual cenário de invasão de piratas da costa ocidental de África, mas até ao momento não tem havido resposta das autoridades portuguesas.

            Quem, embora em situação económica também difícil, tem enviados forças da marinha para formar os diversos corpos militares dos países desta região, é a Espanha, que tem apoiado as forças locais na aprendizagem do combate à pirataria.

           O Atlântico Sul é cada vez mais, um oceano em que predomina o português e por parte de cada um dos países que compõem a CPLP, deveriam começar a idealizar uma estratégia de defesa marítima comum, numa área em que circulam mercadorias da maioria dos seus estados membros. Baía da Lusofonia




terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Trafaria



         Já há  alguns meses  falei neste  blogue na Trafaria e de algumas  boas recordações que esta terra acolhedora me deixou. Foi por lá que em 1966 assisti via televisão ao célebre jogo Portugal – Coreia do Norte para o Campeonato do Mundo que os portugueses ganharam por 5 – 3, após um início que emudeceu todo o mundo, quando os coreanos chegaram ao 0 – 3.

         Na Trafaria começava,  junto ao presídio militar, um extenso areal que só acabava para lá da lagoa de Albufeira. A sua praia, na década cinquenta do século passado, tinha banheiro, baloiços para os mais jovens e chuveiros, apetrechos de vanguarda para época, numa altura em que a maioria dos lisboetas, preferiam a mata do Monsanto para lá realizarem os seus piqueniques, do que efectivamente uma deslocação à praia.

           Junto ao bico da areia, que outrora dava acesso a pé até ao farol do Bugio, a chamada Golada do Tejo, os veraneantes apanhavam bivalves, berbigão e ameijoas e por vezes nos canais que se formavam, era uma correria atrás de polvos. Uma qualidade ambiental excelente.

Um dia tudo desapareceu, quando um político qualquer, de certeza natural de outra região que não Lisboa, decidiu colocar um silo no local aonde hoje ainda se encontra, destruindo um potencial turístico, cuja única recordação se encontra num velho teledisco de uma canção de Amália Rodrigues.

Depois destas palavras de introdução, sobre o passado da Trafaria, onde há registos da passagem de El-Rei D. Carlos, resta-me abordar a actualidade, depois de ler alguns comentários nestes últimos dias sobre o porto de contentores que ali se vai construir, a machadada final numa povoação que tem estado em regressão nas últimas décadas.

Perante o actual cenário da margem esquerda do Tejo até poderia aceitar um porto de contentores na Trafaria, pois já que destruíram uma zona de alta qualidade ambiental, agora só falta acabar o serviço, construindo o novo cais. Vivemos à deriva dos diversos políticos que transitoriamente vão passando pelo governo de Portugal, apresentando na maior parte, grandes currículos académicos, mas parcos em educação para a cidadania.

A questão que me preocupa são os acessos a este porto de águas profundas, que não tem as excelentes condições do porto de Sines. Como será a linha ferroviária numa zona densamente povoada, quanto custarão os acessos com as respectivas indemnizações aos proprietários das terras? Será que irão fazer uma obra monumental, em túnel, que ligará Trafaria ao Poceirão e à margem direita sob o leito do rio? Se não, como será o transporte entre as duas margens, sabendo nós que o primeiro consumidor, o que mais necessita das mercadorias neste porto, são as empresas da grande Lisboa.

Estar a fazer de Lisboa o desígnio que pertence a Sines, de circulação de mercadorias entre os diversos continentes, é um autêntico absurdo! Baía da Lusofonia

Aqui fica  a ligação para um documento da autoria do Almirante Francisco António Torres Vidal Abreu com a data de 12 de Janeiro de 2010. Este interessante testemunho pretende resolver o problema concreto da Golada do Tejo, a questão que levanta é precisamente a solução para o aproveitamento deste projecto.

Gomide

                              A influência russa na literatura brasileira

                                                            I
          Que a literatura russa influenciou boa parte da literatura produzida no Brasil, especialmente no final do século XIX e na primeira metade do século XX, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa influência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido.

       Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2004, que saiu em livro em 2011 pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp): Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936), Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Teoria e Crítica Literária.

            As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Estados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stanford e Califórnia.

            Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como observa o autor na introdução.

          Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um momento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso.

                                                            II
        É observar que a chegada  do  romance russo ao Brasil  foi  uma consequência  marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa.

          Gomide aponta o ensaio O Romance Russo, de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que os romances russos traziam implícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski (1821-1881).

        O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu “surgimento súbito” no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr. (?-?), um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente “ressuscitado” por Gomide, e Clóvis Bevilacqua (1859-1944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava. 

         Para Silvio Romero (1851-1914), os  russos  seriam  também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (1839-1908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava “bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hoffmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.

         Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação para a literatura brasileira.

                                                           III
           Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mostra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica.

            Portanto,  associar  autores  como  Dostoiévski, Turgueniev (1818-1883), Leon Tolstói (1828-1910) e Alexandr Pushkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro Juan Rulfo: Autobiografia Armada (Buenos Aires, Corregidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra “armada”, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido “armada” com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas. Santa ignorância...

            Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figueiredo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Máximo Górki (1868-1936) e Leon Tolstói.

           A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930, textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dostoievski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917.

           Como o livro  vai  até 1936, fora  da análise de  Gomide fica o recente  renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Schnaiderman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também Gente Pobre, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.

                                                        IV
          Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Unicamp, com estágio de doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, Indiana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic).

      Organizou a Nova  Antologia do  Conto Russo (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Pushkin, Gógol, Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov e Sorókin, num total de 40. Tem publicado artigos em periódicos internacionais, como Tolstoy Studies Journal e Vopróssi Literaturi, e participado dos principais congressos de eslavística. Adelto Gonçalves – Brasil

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DA ESTEPE À CAATINGA: O ROMANCE RUSSO NO BRASIL (1887-1936), de Bruno Barretto Gomide. 1ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 768 págs., 2011, R$ 120,00.
E-mail: edusp@usp.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Eficiência


                                             Menor custo logístico                                                                                             
               Se tudo correr dentro dos prazos anunciados, em março de 2014 estarão concluídas duas obras rodoviárias que irão facilitar o acesso ao Porto de Santos, melhorando sobremaneira o trânsito de cargas destinadas à importação e exportação. Será o fim de uma década de caos, ainda que não se possa esperar que não venham a ocorrer problemas porque o volume dos negócios sempre cresce em velocidade superior à da resposta do poder público.

              A primeira  obra é  o trecho Leste do Rodoanel, que  fará a ligação do trecho Sul com o sistema Anchieta-Imigrantes e as rodovias SP-066 (Itaquaquecetuba-São José dos Campos), Ayrton Senna e Dutra, facilitando o acesso ao Aeroporto de Guarulhos e ao Vale do Paraíba. A outra é o novo acesso viário de Cubatão que prevê um minianel de interligação do km 55 da via Anchieta com as rodovias Cônego Domênico Rangoni e Padre Manuel da Nóbrega. Estas obras incluem a duplicação de trecho de oito quilômetros da rodovia Cônego Domênico Rangoni entre a via Anchieta e o viaduto Cosipão.

            A par disso, é de ressaltar que a entrada em funcionamento dos trechos duplicados da via férrea que liga Campinas a Santos pela América Latina Logística (ALL) agilizou a movimentação de cargas ao Porto. Quando concluída, a nova estrutura ferroviária, que faz parte do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC-2), vai dobrar o número de trens em circulação na Margem Direita. E deverá tirar pelo menos 1.500 caminhões por dia das estradas, beneficiando especialmente o segmento de açúcar a granel.

            Obviamente,  todas essas  obras são  bem-vindas, mas não se sabe se serão suficientes para suportar a demanda que será provocada pela entrada em funcionamento de dois terminais privados: o da Embraport e o da Brasil Terminal Portuário (BTP). O terminal da Embraport, em construção da Margem Esquerda, vai operar com contêineres e líquidos e deve entrar em atividade em junho de 2013 com um berço de atracação e parte de seu pátio concluídos. Em outubro, dar-se-á a entrega de trecho adicional, o que permitirá a movimentação de 1,2 milhão de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) por ano.

            O terminal BTP, que vem sendo levantado em área recuperada na região da Alemoa, onde funcionou por décadas um depósito de resíduos portuários, deve entrar em atividade no primeiro trimestre de 2013 e pretende, na fase inicial de operação, movimentar 1,2 milhão de TEUs e 1,4 milhão de toneladas de granéis líquidos.

            Seja como for, o que se espera é que as obras rodoviárias e ferroviárias em fase de conclusão sejam suficientes para suportar a demanda e reduzir em parte o custo da logística no País, que hoje é quatro vezes maior que o dos EUA ou da Argentina. Essa redução pode ser ainda mais acentuada se o governo admitir reduzir o pedágio no modal rodoviário. Afinal, a tarifa paga hoje embute, em média, 20% de impostos, o que encarece o custo logístico. Mauro Dias - Brasil
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Mauro Lourenço Dias, engenheiro eletrônico, é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Convergência

                           A lição de Amílcar Cabral no imperativo de convergência (*)

Um dos maiores desafios que o Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC) tem hoje por resolver, parece-me, que é a dispersão das suas forças.

Mais do que nunca, o MFDC está perante um imperativo comum: o de reunir, para identificar as suas diferenças e trabalhar para determinar as possibilidades de convergência de todas as suas forças.

Porque o único processo para os independentistas poderem considerar seriamente a independência da Casamansa é em primeiro lugar entenderem-se. É necessário ir procurar soluções noutros lugares? Eu diria que «não». Mas se for preciso? Sim. Absolutamente.

A convergência nacional casamansesa é antes de tudo um projecto de mobilização não partidária, uma oportunidade para melhorar a coesão dos independentistas, um espaço aberto de diálogo para as diversas correntes de ideias. É preciso que os naturais de Casamansa, a resistência, as comunidades locais, civis ou religiosas, bem como a diáspora se encontrem, esclareçam os seus objectivos e definam os seus compromissos. Tudo isto, pois eu acredito, é urgente! Merece ser objecto de debate organizado em volta de um líder unificador. E ao MFDC não faltam competências a este nível. Basta apenas apoiá-los.

No entanto, o MFDC deve realizar os necessários exames de consciência que o movimento independentista ainda não conseguiu fazer, inflexível entre as várias facções, alguns amarrados pelas vantagens financeiras do regime senegalês.

Caso contrário, o risco é grande, numa acção partidária independentista, as diferenças de opinião, eventualmente, trarão antagonismos insuperáveis. Neste contexto, é necessário resolver o foco político sem intermediários (senegaleses, gambianos, guinéus ou franceses), mais de cidadão para cidadão, de Casamansês para Casamansês. Bintou Diallo – Casamansa - Casamance
 
(*)   Unidade

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Musicalmente


“Chico César define-se como artista militante e a sensibilidade político-social dele emerge em cada conversa, em cada cançom. É natural, ele nom nasceu rico, como a maior parte dos artistas brasileiros que conhecemos, e só com oito anos já conseguiu o primeiro emprego num dos estados mais pequenos do Brasil, a Paraíba, ainda que já se saiba que quem di pequeno no Brasil quer dizer de tamanho médio deste lado do Atlántico: ocupa tanto como duas Galizas. O seu êxito internacional chegou pola mao de temas que logo se tornárom verdadeiros hinos afroamericanos como ‘Mama África’ ou ‘Respeitem meus cabelos, brancos’. Na nossa terra, umha música composta por ele (‘Pensar em você’) tem soado mais na voz de Daniela Mercury ou de Uxía Senlle, com quem o Chico vinhera pola primeira vez à Galiza na ediçom inaugural de Cantos na Maré. A este festival voltou agora para comemorar o décimo aniversário do encontro lusófono. Desta vez compartilhou cartaz com o portuense Rui Veloso, o moçambicano Cheny Wa Gune e a galega Sés, mas estivo acompanhado por muitos outros músicos em Ponte Vedra: Dani Black (Brasil), Paulo Borges (Açores), Berg (Portugal), Sérgio Tannus (Brasil) ou a própria Uxía Senlle. Nós fomos buscá-lo à Casa das Crechas, onde já é tradicional que uns dias antes da festa se faga um encontro de artistas lusófonos. Falou-nos nom apenas como músico, também como político brasileiro, pois agora detém um cargo cultural no seu estado natal.

Como vias a Galiza primeiro e como vês agora que sabes dela?

Ao conhecer um lugar da Espanha que nom falava espanhol, que falava português, fiquei muito curioso e quando cheguei entendim: eles nom som espanhóis, som galegos. Tenhem umha língua: dançam nessa língua, cantam nessa língua, vivem nessa língua. Confirmou para mim que a Espanha é umha abstraçom autoritária e sentim-me mui próximo dos galegos, porque a língua que falam é umha língua muito próxima da língua que falam os velhos do interior falam, que meu pai fala: é umha língua que troca o jota pelo xis, por exemplo.

Para um artista com sensibilidade político-social como tu, a que continente achas que é preciso estarmos mais atentos?

É importante estarmos atentos à Europa. admitirmos que o capitalismo faliu, o capitalismo resultou mal, nom pode produzir tantas coisas inúteis para tanta gente útil. as pessoas precisam de coisas para o dia-a-dia e o capitalismo produz mercadorias e mais mercadorias. os trabalhadores nom possuem tanto como para comprar tanto produto e tu nom podes comprar todos os anos um automóvel, umha máquina de lavar, uns sapatos; nós nom precisamos disso. Precisamos de comer, amar, dormir e isso nom é o capitalismo; o capitalismo é só consumir. Entom, nós devemos olhar para a Europa e ver que isso deu errado: o capitalismo falhou.

Entre a socialdemocracia europeia, a evoluçom do Brasil goza de grande admiraçom. Tu achas que se está a tornar um país mais justo desde o governo de Lula?

Um pouco, mas precisa muito mais. Porém, os movimentos sociais nom podem entregar o seu destino a governos. devem apenas formatar cousas que já nom estám na rua, que já nom dá para serem seguradas por mais tempo. os movimentos sociais existem para conquistar novas cousas. o Brasil ainda nom fijo umha reforma agrária decente: muitos camponeses brasileiros vivem sem terra.

Antes comentaste-nos que o Brasil é um país muito autossuficiente musicalmente. Achas que a Lusofonia em geral e a Galiza em particular tenhem cabimento nesse continente musical?

Os ícones da música brasileira, Chico Buarque, Gilberto Gil... devem levar a lusofonia para o Brasil. Eles podem dizer: “a lusofonia é importante”, nom apenas como umha referência a um pouco de Cesárea Évora, um pouco de...

Como se chama esta cantora de fado portuguesa?

Amália Rodrigues. ...

um pouco de Amália. Nom! É importante levar Cabo verde e também a Guiné Bissau, mas nom só como umha idealizaçom, senom como algo concreto.

O que representa para ti a Cantos na Maré no âmbito da Lusofonia?

Cantos na Maré é a lusofonia tornada realidade: Moçambique, Cheny Wa Gune, Angola, Portugal, Rui veloso, a Galiza, Uxía, é a realidade do que se canta lusofonicamente no mundo, e isso interessa-me muito.” Eduardo Maragoto - Galiza in “Novas da Galiza”

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Letras


“A segunda edição da Rota das Letras – Festival Literário de Macau acontece de 10 a 16 de Março de 2013 e traz ao território mais de 30 escritores, editores, tradutores, jornalistas, músicos, cineastas e artistas plásticos.

Este ano o evento recebe um apoio ainda mais significativo do Instituto Cultural e da Fundação Macau, que agora coorganizam o festival, ao lado do jornal Ponto Final.

Seguindo o modelo do ano passado, o festival terá conferências e debates, bem como uma feira do livro, exposições de artes plásticas, concertos e projecção de filmes.

O programa do festival deste ano apresenta vários autores proeminentes da literatura chinesa contemporânea, incluindo Bi Feiyu, vencedor de vários prémios literários da China, bem como do Asian Man Booker Prize; Hang Shaogong, autor de “A Dictionary of Maqiao” e tradutor dos escritos de Fernando Pessoa; Hong Ying, uma das autoras chinesas mais reconhecidas internacionalmente; e Yi Sha, um nome controverso na poesia chinesa contemporânea. Outros autores, como Sheng Keyi, Qiu Huadong, Pan Wei, Wang Gan, Haung Lihai, Li Shao Jun e a poetisa taiwanesa Xi Murong são também vozes bastante influentes da cena literária actual – e todos eles estarão presentes no festival.

No que toca a autores lusófonos, a Rota das Letras convida Dulce Maria Cardoso, uma das melhores romancistas da sua geração; Rui Zink e Ricardo Araújo Pereira, que trabalham com a linguagem e o humor de modos muito especiais; Francisco José Viegas, antigo secretário de Estado da Cultura de Portugal, autor e editor; Valter Hugo Mãe, recentemente vencedor do prémio Portugal Telecom, um dos galardões mais prestigiados entre os conferidos a autores de língua portuguesa; a escritora e jornalista Alexandra Lucas Coelho; o jornalista e tradutor Carlos Vaz Marques; a editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa e, com o apoio da Casa de Portugal, a romancista Deana Barroqueiro.

José Eduardo Agualusa, autor angolano e um dos mais conhecidos nomes entre os escritores africanos de expressão portuguesa, também virá para o festival, tal como Luís Cardoso, provavelmente a voz literária mais importante de Timor-Leste. Do Brasil já estão confirmadas a presença do poeta Regis Bonvicino e do Director-geral da Festa Literária Internacional de Paraty, Mauro Munhoz. Paloma e Cecília Amado, filha e neta de Jorge Amado (1912-2001), um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos, vêm a Macau para uma homenagem ao autor. Será exibido um documentário e um filme de ficção sobre a sua vida e um dos seus livros, respectivamente.

Vários autores locais, como a poetisa Fernanda Dias, Tong Mui Siu (汤梅笑), Chek In(寂然)Lou Mou (鲁茂) e Wong Man Fai (黄文辉)estão entre os convidados do evento, representando a cena literária de Macau.

A Rota das Letras decidiu também abrir-se gradualmente a outros escritores asiáticos e latinos, e é por isso que este ano recebe os franceses Antoine Volodine e Claude Hudelot, que já desenvolveram no passado afinidades com Macau, a China e o mundo lusófono.

Um dos pontos altos da programação do festival será o lançamento do livro de contos sobre Macau. Na primeira edição da Rota das Letras o público foi convidado a participar num concurso de contos, que teve como júris alguns dos autores que nos visitaram: Su Tong, José Luís Peixoto e Xu Xi, para as línguas chinesa, portuguesa e inglesa, respectivamente. Dos mais de 30 contos recebidos, alguns foram selecionados para publicação. Os vencedores serão anunciados na conferência de imprensa do festival.

Estes contos serão publicados ao lado daqueles escritos pelos autores convidados da edição do ano passado – nomes como Lolita Hu, João Paulo Cuenca, Jimmy Qi, Rui Cardoso Martins, Xu Xi e José Luís Peixoto. Este ano o festival convida novamente todos os autores que visitam Macau a escrever sobre a cidade.

A Rota das Letras terá alguns destaques no que toca ao cinema. O várias vezes premiado “A Última Vez Que Vi Macau”, dos cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, terá a sua pre-premiere chinesa no festival, antes de seguir para o Festival Internacional de Cinema de Hong Kong. Este é provavelmente o filme sobre Macau mais importante e mais premiado das últimas décadas.

Da China, o realizador Wiseman Wang virá para mostrar “Journey to the South”, um ‘road movie’ em que um camionista atravessa a China, rumando a sul e à província de Guangdong, tentando fazer dinheiro para resolver problemas familiares.

O realizador Ivo Ferreira também mostrará o seu novo filme, “Na Escama do Dragão”, durante o festival; e o historiador e sinólogo Claude Hudelot apresentará “Hou Bo, Xu Xiaobing, Mao’s Photographers”, documentário que co-realizou com Jean-Michel Vecchiet.

Tal como no ano passado, a música volta a ter um papel importante no festival. A mais tradicional música portuguesa, o fado, estará representada na aclamada voz de Camané. Dead Combo, um dos projectos musicais mais interessantes em Portugal e que ganhou reconhecimento internacional depois de aparecer no programa de TV “No Reservations”, de Anthony Bourdain, também está confirmado.

A Rota das Letras terá ainda dois artistas em residência na Fundação Oriente: o chinês Chen Yu e Theodore Mesquita, de Goa. Os dois pintores, com backgrounds muito diferentes, vêm ao território com o mesmo propósito: criar trabalhos que reflictam a sua experiência em Macau. Além das novas peças produzidas por cá, os autores irão também expor trabalhos anteriores na galeria do piso térreo da Fundação Oriente.

Outra exposição, com curadoria da artista local Alice Kok, terá lugar no edifício do antigo tribunal, onde vários artistas locais mostrarão os seus trabalhos sobre o tema “Para além das Palavras”.

Em colaboração com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, o festival espera estabelecer uma relação mais forte com as escolas e universidades, dando aos leitores mais jovens a possibilidade de estarem em contacto com os escritores convidados.

Este ano o festival tem o apoio da Universidade de Macau, Pen Clube de Macau, Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, Turismo de Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Sociedade de Artes e Letras, Instituto Português do Oriente, Fundação Oriente, Macau Closer, Livraria Portuguesa e Casa de Portugal, entre várias outras entidades públicas e privadas.” In “Rota das Letras – Festival Literário de Macau” - Macau

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Lei 8 630


                                                                                                                     
          SÃO PAULO - É  inegável que a  Lei 8 630, a  chamada Lei de Modernização dos Portos, em vigor há exatos 20 anos, representou um avanço considerável nas atividades do Porto de Santos. Como se sabe, essa Lei passou a admitir a participação da iniciativa privada numa série de atividades que antes eram exclusivas da empresa estatal responsável pela gestão e operação do porto.

            Isso se deu, porém, não em razão de uma estratégia clara do governo ou por razões ideológicas, mas porque, diante do crescimento da participação do País no comércio exterior e dos volumes movimentados, a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), sucessora da antiga Companhia Docas de Santos (CDS), mostrava-se incapaz de responder à demanda.

            Não fosse por isso, com certeza, o modelo antigo continuaria a vigorar por mais anos a fio, com a empresa funcionando como moeda de troca no jogo partidário e cabide de empregos para apaniguados de políticos de alto escalão. Muitos trabalhadores hoje aposentados lembram-se bem do tempo em que para conseguir uma vaga nas Docas era preciso exibir um bilhetinho assinado por um deputado federal.

         Ainda  bem  que a  classe política  teve de se  curvar às  exigências da modernidade e da sociedade. O resultado é que, em 20 anos, os operadores privados mudaram radicalmente o panorama no Porto. Isso fica claramente expresso nos números oficiais dos índices de eficiência, ou seja, produtividade, tempo de espera das embarcações na barra e custo de operação por contêiner.

          Segundo dados da Santos Brasil, o custo de operação de um  contêiner para embarque/desembarque passou de US$ 737 em 1995 para US$ 290 em 2012, ou seja, houve uma redução de 60% desde a implantação da Lei 8.630. No mesmo período, o tempo de espera para atracação caiu de 22 horas para 6 horas. Já os índices de produtividade subiram de 15 movimentações por hora (mph) para até 155 mph em determinadas embarcações. Mas, em média, o Terminal de Contêineres (Tecon), operado pela Santos Brasil, tem alcançado a marca de 80 mph, o que se assemelha aos padrões dos terminais europeus.

            A produtividade da Libra Terminais não tem ficado muito atrás. Em 2011, a média de operações da empresa foi de 37 mph, mas em 2012 há houve um ganho significativo, com o índice passando para 50 mph. Para 2013, a expectativa da empresa é chegar a 70 mph, o que igualmente pode ser considerado um padrão europeu.

          Obviamente, isso não significa que se vive o melhor dos mundos e não haja necessidade de novos avanços, mas a conclusão que fica é que, ao abrir espaço para a participação privada nas operações portuárias, o País escapou do pior.

          Não  foi à  toa que o  governo,  novamente  pressionado  pela  realidade adversa, tratou de editar a Medida Provisória 595 que permite que terminais privados sejam instalados fora da área do porto organizado, enquanto dentro do porto organizado as áreas serão sempre licitadas obedecendo à diretriz da maior movimentação de cargas e menor preço oferecido.

           Agora o governo corre  para  leiloar 158 terminais  portuários  até o final do ano. Se haverá de consegui-lo, não se sabe, já que a morosidade estatal é sobejamente conhecida: afinal, nos últimos cinco anos, apenas oito ou nove terminais foram licitados. Seja como for, se arrendar pelo menos 50% desse número em 2013, já terá dado um passo gigantesco. Milton Lourenço - Brasil
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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Cúpula

        
            Inicia-se hoje, 20 de Fevereiro de 2013, no Palácio de Conferências de Sipopo, em Malabo, capital da Guiné Equatorial, a III Cúpula América do Sul – África que decorrerá até ao próximo dia 23 de Fevereiro.

            Nos dois primeiros dias estarão em debate vários temas relacionados com a agricultura, inovação e assuntos da agenda internacional como a reforma da ONU e dos organismos financeiros internacionais, a cargo de altos funcionários dos 66 países presentes, 54 africanos e doze da América do Sul. Irá realizar-se também no dia 21, uma mesa redonda sobre infraestruras, energia e transportes.

            Entre os países presentes, encontram-se o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, membros da CPLP, estando confirmada a presença da presidente do Brasil, Dilma Rousseff e do presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca.

            A Cúpula América do Sul – África foi criada em 2006 por proposta da Nigéria e que a diplomacia brasileira apadrinhou, assumindo na altura o governo do presidente Lula da Silva, como um instrumento determinante na aproximação entre o continente africano e sul-americano. A 1ª Cúpula realizou-se em Abuja, capital da Nigéria em 2006, seguindo-se a 2ª Cúpula em Porlamar, no norte da Venezuela em 2009.

            Asseguraram já a sua presença em Malabo, além dos já mencionados, o presidente da Bolívia Evo Morales, os presidentes do Suriname e Guiana que participarão na sessão plenária de Chefes de Estado que acontecerá na próxima sexta-feira, dia 22, em Malabo, durante a qual, os participantes trabalharão em sessão privada, sobre o tema “Estratégias e Mecanismos para fortalecer a Cooperação Sul-Sul”. Baía da Lusofonia


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Aliança



Sermos Galiza publica “O Crânio de Castelao”, um romance de 11 autores lusófonos, da Galiza ao Timor Leste.

Coordenado pelo escritor e professor Carlos Quiroga, “O Crânio de Castelao” é a trama policial criada arredor da relíquia do autor de Sempre em Galiza por Miguel Miranda e Possidónio Cachapa, de Portugal; Bernardo Ajzenberg de Brasil, Germano Almeida de Cabo Verde, Luís Cardoso do Timor e Carlos Quiroga, Xavier Queipo, Xurxo Souto, Suso de Toro, Quico Cadaval e Antón Lopo da Galiza, importantes vultos das suas literaturas que partilham dum romance policial escrito a muitas mãos numa língua comum.

Sermos Galiza oferece este folhetim por entregas ao tempo que se publica no jornal O Rascunho do Brasil e no Jornal de Letras, Artes e Ideias de Portugal. A desaparição do crânio de Castelao unirá os países da lusofonia na construção duma obra conjunta que nasceu no histórico encontro Latim em Pó que teve lugar há uma dúzia de anos em Compostela. Sermos Galiza - Galiza

Cidadania


“É um lugar-comum dizer que investir na educação é investir no futuro. O problema é que temos uma grande propensão para esquecer esta verdade tão evidente. Quer ao nível das famílias quer ao nível da nação. Muitas vezes o esquecimento resulta de razões de comodidade, que estudar dá muito trabalho, mas quando se trata do nível nacional, é a falta de visão e de empenho dos responsáveis pelo sector da educação que explicam o fracasso e o atraso. Uma governação responsável dá uma importância especial à educação. E não apenas à educação formal, relacionada apenas com o mínimo obrigatório. É preciso não esquecer a educação para a cidadania, aquela que permite formar cidadãos responsáveis, disciplinados e cientes dos seus deveres bem como dos seus direitos. E também não esquecer a educação ao longo da vida, que o mundo de hoje está em mudança permanente e exige que se adquiram novas capacidades de um modo continuado.” Victor Ângelo – Portugal in “Vistas Largas”

Já lá vão alguns anos, estava eu no meu local de trabalho, quando entra na sala um colega, licenciado em economia, com um trajecto de estudante no Colégio Militar e se dirigiu a uma companheira de serviço para perguntar como se fazia uma regra de três simples… mais tarde uma colega do quarto ano de economia, que estava quase a completar o curso, interrompe um trabalho de grupo, para perguntar a um engenheiro, muito experiente em explicar matemática, como se faziam aquelas coisas das linhas. Linhas para aqui, linhas para acolá, ao fim de um longo período de diálogo, afinal o que a finalista de economia pretendia era fazer um gráfico! O fracasso, o atraso, não está apenas nos alunos que interromperam prematuramente, por alguma razão, os estudos, está também naqueles que terminando um curso, têm muitas dificuldades em aplicá-lo. Baía da Lusofonia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mirandês



“A preservação das chamadas línguas minoritárias tem vindo a tornar-se uma evidência para cada vez maior número de pessoas. Mas esse é sobretudo um imperativo orientado a preservar uma parte indispensável do património cultural da humanidade. Daí que todo o processo de defesa e promoção da língua deva ser encarado como uma exigência de cidadania da mais alta importância, que não tem apenas uma dimensão nacional, mas internacional.

A diversidade linguística e cultural é uma riqueza para Portugal, integrante da nossa identidade. Aceitando a verdade histórica e sociológica, Portugal deve apresentar-se como país bilingue e integrar essa referência nos programas das nossas escolas, dando a conhecer a todos os cidadãos a existência da língua mirandesa, sua origem e características.

A democracia linguística é um elemento importante da democracia em geral, assente no respeito pela diferença. Não basta uma lei proclamatória, exigindo-se que o Estado concretize os compromissos que assumiu em lei, nos mais diversos domínios.

Além de um problema de dignidade dos seus falantes, as línguas são também um problema ecológico, entendido em sentido amplo, que a todos deve preocupar. Pela língua se exprimem culturas, tradições, saberes e modos de viver que são essenciais ao equilíbrio das sociedades e ao bem-estar dos cidadãos. Também de Portugal. Se o mirandês desaparecer ninguém ganha nada com isso, mas Portugal, os portugueses e, dentre estes, os mirandeses ficam mais pobres.

Para os mirandeses e para todos os concelhos da terra de Miranda, em particular, o mirandês e a cultura mirandesa assumem-se também como um importante valor económico, que importa ter em conta numa região que está em profunda depressão económica e em acelerado processo de desertificação. Pelo facto de falarem outra língua, os mirandeses não são menos portugueses que os outros, como o demonstra a sua história, nem nunca quiseram ser outra coisa senão portugueses. Hoje os mirandeses continuam a ser bilingues e a sua afirmação do mirandês não implica a negação do português. Defender, promover e desenvolver a língua mirandesa é um dever de cidadania que se impõe, nomeadamente a todos os mirandeses.” Amadeu Ferreira - Portugal


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Lhéngua

La lhéngua mirandesa


Quien dirie q’antre ls matos eiriçados,
Las ourrietas i ls rius desta tierra,
Bibie, cumo l chougarço de la sierra,
Ua lhéngua de sons tan bariados?

Mostre-se i fale-se essa lhéngua, filha
Dun pobo que ten neilha l choto i l canto!
Nada por cierto mos cautiba tanto
Cumo la forma an que l’eideia brilha.

Zgraciado daquel, q’abandonando
La pátria an que naciu, la casa i l huorto,
Tamien se squece de la fala! Quando
L furdes ber, talbeç que steia muorto!

Leite de Vasconcellos – Portugal
 
Hai lhénguas que to Is dies se muorren i hai lhénguas que to Is dies renácen.
Hai lhénguas cun sous scritores i hai lhénguas de cuntadores.
Hai lhénguas que son de muitos, i hai lhénguas que poucos úsan.
Mas todas eilhas, se son lhénguas de giente, son cumplexas na mesma.

A língua é laço, união, presença no mundo. Há línguas que tendem a unir o mundo todo e há línguas que unem apenas meia dúzia de sobreviventes. Falar é defender a vida de uma comunidade, seja ela pequena ou grande. E quanto mais pequena, quanto mais diminuída, mais necessidade tem de se unir para sobreviver. Mais precisa de marcar a sua presença.

Falar é poder.

E o poder de uma fala é a medida do seu poder no mundo. Quanto mais poder tem, maior é o número daqueles que têm de a aprender para saberem como funciona o mundo em que se movem. Os que falam línguas pequenas têm todo o interesse em aprender e em conhecer profundamente as línguas maiores com que convivem. Mas têm também todo o interesse em refugiar-se, quando precisam, no reduto da sua própria língua, que os mais poderosos não sabem e até desdenham.

Para as pequenas comunidades, a sua capacidade de manter a língua própria é a medida da sua capacidade de resistir à massificação. É, no fim de contas, a demonstração de que pode sobreviver enquanto comunidade específica.

O tamanho de uma língua mede-se pelo número dos seus falantes. De grande tamanho é a língua que muita gente conhece e língua pequena é uma língua com poucos utilizadores. Mas o tamanho de uma língua não é o mesmo que a sua grandeza. A grandeza da língua está noutro plano. In “Sítio de I Mirandés”

A segunda língua oficial de Portugal

Enquadramento

O Mirandês é uma língua do nordeste de Portugal, ocupando uma região com cerca de 500 Km2.

Teve origem num dos romances peninsulares formados a partir do latim vulgar, nomeadamente no asturo-leonês, pelo que pertence ao grupo das línguas românicas.

A sua formação foi um processo longo, contemporâneo da formação do galego-português. Sofreu grande influência do português, sobretudo a partir do século XVI, tendo chegado a ser inteiramente substituído por este na cidade de Miranda. Foi conservado nas aldeias envolventes, durante séculos, como língua de transmissão oral.

Foi descrito - e pela primeira vez escrito - por José Leite de Vasconcelos no fim do séc. XIX. É este sábio português que marca a sua descoberta no meio filológico peninsular.

O processo de normatização da língua foi iniciado em 1995, com a publicação de uma Proposta de Convenção Ortográfica Mirandesa, e consolidado em 1999, com a edição da Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa. A palavra "Língua", neste título, é legitimada pelo facto de o Mirandês ter sido reconhecido como língua oficial pela Lei 7/99, de 29 de Janeiro do mesmo ano.

Na actualidade, após o último censo da população, estima-se que o número dos seus falantes, na zona de origem, não deverá ultrapassar as 7.000 pessoas. Se acrescentarmos o número de emigrantes de fala mirandesa, chegar-se-á a um total estimado entre 12.000 e 15.000 pessoas.

É ensinada nas Escolas EB23 de Miranda do Douro e de Sendim e na escola Primária de Sendim como disciplina de opção. Barros Ferreira – Portugal In “Sítio de I Mirandés”

Legislação

Lei n.º 7/99 de 29 de Janeiro

Reconhecimento oficial de direitos linguísticos da comunidade mirandesa

A Assembleia da República decreta, nos termos alínea c) do artigo 161.º da Constituição, para valer como lei geral da República, o seguinte:

Artigo 1.º

O presente diploma visa reconhecer e promover a língua mirandesa.

Artigo 2.º

O Estado Português reconhece o direito a cultivar e promover a língua mirandesa, enquanto património cultural, instrumento de comunicação e de reforço de identidade da terra de Miranda.

Artigo 3.º

É reconhecido o direito da criança à aprendizagem do mirandês, nos termos a regulamentar.

Artigo 4.º

As instituições públicas localizadas ou sediadas no concelho de Miranda do Douro poderão emitir os seus documentos acompanhados de uma versão em língua mirandesa.

Artigo 5.º

É reconhecido o direito a apoio científico e educativo, tendo em vista a formação de professores de língua e cultura mirandesas, nos termos a regulamentar.

Artigo 6.º

O presente diploma será regulamentado no prazo de 90 dias a contar da sua entrada em vigor.

Artigo 7.º

O presente diploma entra em vigor 30 dias após a data da sua publicação.

Aprovada em 19 de Novembro de 1998.

O Presidente da Assembleia da República, António de Almeida Santos.

Promulgada em 15 de Janeiro de 19999

Publique-se.

O Presidente da República, JORGE SAMPAIO.

Referendada em 19 de Janeiro de 1999.

O Primeiro-Ministro, António Manuel de Oliveira Guterres.

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Despacho Normativo n.º 35/99

A Lei n.º 7/99, de 29 de Janeiro, reconhece o direito a preservar e promover a língua mirandesa, enquanto património cultural, instrumento de comunicação e de reforço de identidade da terra de Miranda.

Nos termos dos artigos 3.º e 5.º da mesma lei, cabe regulamentar o direito à aprendizagem do mirandês, bem como o necessário apoio logístico, técnico e científico.

Assim, determina-se:

1 – Aos alunos dos estabelecimentos dos ensinos básico e secundário do concelho de Miranda do Douro é facultada a aprendizagem do mirandês, como vertente de enriquecimento do currículo.

2 – A disponibilização da oferta referida no número anterior compete aos estabelecimentos dos ensinos básico e secundário do concelho de Miranda do Douro, mediante o desenvolvimento de projectos que visem preservar e promover a língua mirandesa.

2.1. – Os projectos devem contemplar finalidades e metodologias pedagógicas, bem como a identificação dos meios e dos recursos necessários, nomeadamente no âmbito da formação de professores.

2.2. – Os projectos são aprovados pelos directores dos Departamentos da Educação Básica e do Ensino Secundário, conforme os níveis de ensino em que incidem, após parecer favorável do director regional de Educação do Norte.

2.3. – Os projectos podem desenvolver-se em parceria com entidades da comunidade local, designadamente com o município e associações culturais, mediante a celebração de protocolos de cooperação.

3 – Os competentes serviços centrais e regionais do Ministério da Educação prestam o apoio logístico, técnico e científico que se apresentar adequado ao desenvolvimento dos projectos a que se refere o presente despacho.

Ministério da Educação, 5 de Julho de 1999. – O Ministro da Educação, Eduardo Carrega Marçal Grilo. Baía da Lusofonia